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Por Andressa Mattos
A realização de uma educação inclusiva no contexto atual não é tarefa fácil. A inclusão escolar é um campo que se encontra marcado por imperativos que precisam ser analisados a partir de vários eixos. Um deles refere-se à própria relação que se funda entre a escola e a demanda de inclusão que opera desde o social. Não menos desprovida de dificuldades é a tarefa de um Estado que intenta organizar uma política pública, no empenho de garantia do acesso a todos os seus cidadãos àquilo que lhes cabe por direito.
A educação inclusiva fundamenta-se na concepção de diferenças, algo da ordem da singularidade dos sujeitos, supõe que as diferenças sejam parte de seus estatutos. Como não torná-la, a cada passo, um novo instrumento de classificação, seleção, reduzindo os sujeitos a marcas mais ou menos identitárias de uma síndrome, deficiência ou doença mental?
Pensar as necessidades educacionais de uma criança envolve considerá-la desde um lugar estrutural, que não se restringe ao campo das deficiências, ou dos sintomas que venha a apresentar. Se a criança for vista pelo professor, primordialmente, como sendo alguém que é portadora de desejos, de uma história, os caminhos para a aprendizagem estarão incluindo o que é fundante no ser humano: a palavra.
Não se trata apenas de anunciar a ordem “escola para todos”, mas sim que estes “todos” possam ser registrados em sua singularidade, enquanto sujeitos. As vias que cada um vai colocar em jogo para atravessar o campo da aprendizagem serão marcadas por traços subjetivos. Diante de um mesmo trabalho a ser realizado, todas as crianças colocam em jogo o que há de mais singular em sua constituição: seu desejo, remetido ao desejo do Outro.
Frente a este desafio, como pensar o trabalho do professor tendo em vista a singularidade dos sujeitos? É neste sentido que as contribuições da Psicanálise na interlocução com a Educação entram em jogo. Alguns aspectos destas contribuições serão considerados na aula: O trabalho do professor e o olhar para a singularidade.
O núcleo tem o objetivo de debater temas que envolvam a interface psicanálise e educação. Participam do grupo profissionais – terapeutas e educadores – que desejam discutir questões clínicas e aspectos importantes na direção do processo educacional de crianças e adolescentes com alguma dificuldade em seu percurso escolar.
O núcleo também recebe as escolas cujos alunos participam das atividades da SERPIÁ para o diálogo interdisciplinar, sempre enriquecedor da prática de cada um.
Nesse texto, a pedagoga Andressa Mattos comenta em detalhes o objeto e os objetivos do Núcleo de Psicanálise e Educação.
Participantes:
Andressa Mattos
Camila S. G. Acosta Gonçalves
Cassiana Atem
Cláudia Rietter
Cristina Sarturi
Daniel Dias Brepohl
Danielle Guerra
Elise Haquim Camargo Santos
Giane Edimara Broch
Ingrid Cadore
Irene Piconi Prestes
Ísis Romankiu de Alencar
Responsável pelo núcleo: Verônica Fleith
Criado em 2008, o núcleo objetiva, fundamentalmente, pensar a clínica com crianças, entendendo se tratar de um trabalho que possui algumas especificidades. O núcleo é formado por profissionais de diversas áreas, como psicologia, terapia ocupacional e musicoterapia, que adotam como forma de trabalho a articulação teórico-prática, a partir da apresentação e discussão de fragmentos de casos clínicos. Os encontros têm duração de uma hora e são realizados semanalmente.
Participantes:
Responsável pelo núcleo:
Na SERPIÁ, o desenvolvimento das questões acerca da saúde mental ganha forma também nos núcleos de estudo. Os núcleos são pensados através das questões que emergem do atendimento clínico, assim como das situações relativas ao nosso meio sócio-cultural. A participação nos núcleos é aberta a qualquer integrante da equipe SERPIÁ.
A Inclusão dos Pais no Tratamento Psicanalítico de Crianças/Adolescentes
A segunda edição do curso de Psicanálise e Educação, realizado entre os dias 31 de agosto e 30 de setembro, pelo Núcleo de Psicanálise e Educação da SERPIÁ, foi um sucesso. Segundo um dos coordenadores, Daniel Brepohl, baseado no retorno dado pelos alunos, o objetivo do curso de transmitir a essência do saber psicanalítico no que ele pode contribuir para a prática educativa foi alcançado. “No último dia do curso estabelecemos um debate com a finalidade de trocar impressões sobre a experiência. Ficamos especialmente satisfeitos e estimulados ao perceber que, apesar da terminologia própria da psicanálise – que reconhecemos ser um tanto densa – o grupo havia apreendido o essencial”, comenta.
Experiência que traz melhorias
Alguns dos fatores que contribuíram para a boa avaliação por parte dos alunos são resultados das mudanças realizadas
na programação do curso para essa segunda edição. Brepohl explica que apesar da estrutura do curso permanecer a mesma, houve um sensível aprimoramento e ampliação do conteúdo em relação ao ano anterior, devido à maior experiência e reflexão dos professores, assim como a participação de novos profissionais. “Os ministrantes tinham mais propriedade sobre o conteúdo que transmitiam e os temas estavam mais adequados à realidade dos educadores”, diz.
A psicóloga Rebeca Kovalhuk concorda com o coordenador. Na opinião dela, os temas abordados foram muito pertinentes ao trabalho escolar e os professores demonstraram ter conhecimento sobre a teoria psicanalítica educacional e também sobre a prática clínica/escola. “Vejo este curso como uma ótima iniciativa, pois é difícil encontrar outras instituições que proporcionem essa interlocução da psicanálise com a educação”, argumenta.
Para a psicóloga Priscyla Makiolke, a forma como os ministrantes apresentaram os conteúdos superou as expectativas. “Eles conseguiram sintetizar conteúdos complexos, estavam comprometidos em utilizar recursos diferentes, como filmes, e indicaram muitos livros. Às vezes, essas são coisas que faltam em um curso”, comenta.
O coordenador ressalta que a participação ativa dos alunos nas aulas e debates foi um dos fatores que também contribuíram para o bom andamento das aulas.
Curso ficará na memória
Para o Núcleo de Estudos de Psicanálise e Educação, uma das marcas dessa segunda edição refere-se à participação da pedagoga Elise Haquim como ministrante. “A participação de uma pedagoga possibilitou uma maior identificação dos participantes com aquilo que estava sendo ministrado”, comenta o coordenador.
Já para os alunos, essa marca diz respeito às contribuições que a participação no curso trouxe para suas vidas. A pedagoga Bárbara Bittencourt comenta que assistir às aulas possibilitou a ela ter um novo olhar sobre as áreas profissional e pessoal. “O curso me ajudou bastante na minha prática profissional, durante as aulas pude perceber no que eu poderia melhorar e de que forma poderia contribuir dentro do meu trabalho”, complementa Rebeca.
A oceanógrafa Chayane Telles, que trabalha com educação ambiental, conta que mesmo ficando um pouco perdida nas aulas (pelo fato de sua formação ser em outra área) pôde aprender muito. “Cada uma das experiências que as colegas de turma compartilhavam era um aprendizado. Tenho certeza de que cada uma delas me ajudará muito no meu trabalho com as crianças especiais”, afirma.
O coordenador comenta que outro ponto marcante foi a maior aproximação entre os ‘representantes’ da psicanálise e os da educação e deixa o convite: “já estamos discutindo os preparativos para a próxima edição, que queremos realizar no primeiro semestre do próximo ano”.
A SERPIÁ realizará este ano o curso O Tratamento de Crianças e Adolescentes com Sofrimento Psíquico e a Psicanálise. O principal objetivo do curso, voltado para profissionais da saúde mental e educação que trabalham com queixas relacionadas aos efeitos do sofrimento psíquico, é instrumentalizar profissionais clínicos envolvidos no tratamento de crianças e adolescentes com conceitos e abordagens da psicanálise. “O tratamento envolve várias disciplinas e várias especialidades, que muitas vezes podem ser beneficiadas pela leitura psicanalítica do que acontece na clínica”, explica a coordenadora do curso Verônica Fleith.
As aulas serão realizadas quinzenalmente, de abril a dezembro, nas manhãs e tardes dos sábados (das 8h às 12h e das 14h às 18h), começando no dia 18 de abril. As aulas, num total de 120 horas, serão realizadas na sede da SERPIÁ. As inscrições já estão abertas e as vagas são limitadas.
Experiência clínica
Esta será a segunda edição do curso, que antes era chamado de Clínica Psicanalítica com Crianças e Adolescentes. De acordo com Verônica, a mudança de nome ocorreu por que o anterior poderia sugerir que seria feita a formação de psicanalistas, o que não corresponde à proposta do curso.
O curso surgiu a partir de demandas de profissionais que participaram de outros cursos e jornadas promovidos pela SERPIÁ e gostariam de aprender mais com a experiência clínica da instituição. Portanto, assim como no ano passado, as aulas serão ministradas por terapeutas da própria clínica: as psicanalistas Suely Poitevin, Verônica Fleith, Maria Augusta Guimarães e Maria Aparecida Pedrosa, a terapeuta ocupacional Regina Titotto Castanharo, a musicoterapeuta Iara Iarema e a educadora brinquedista Ingrid Cadore. Além disso, estão previstas participações de profissionais convidados.
Serão quinze encontros ao longo do ano, abordando temas como os fundamentos da clínica psicanalítica, a clínica interdisciplinar fundamentada pela psicanálise, a educação e a psicanálise e a constituição do sujeito segundo a psicanálise. Em breve, folder com a programação completa.
Para a turma que participou do curso no ano passado, serão realizados seminários temáticos, que darão continuidade aos temas discutidos pela turma do curso realizado no ano passado. Mais informações em breve.
A primeira edição do curso de Clínica Psicanalítica com Crianças e Adolescentes, realizado entre abril e dezembro,
encerra suas atividades no sábado, dia 13 de dezembro. O curso surgiu a partir da demanda de pessoas que procuravam a SERPIÁ para conhecer a experiência dos terapeutas da clínica. As aulas foram dadas por profissionais da ONG. Em 2009, o curso será reaberto, com novas turmas.
“A idéia era instrumentalizar profissionais clínicos diversos para aprofundar sua leitura sobre crianças e adolescentes, pensando no que é essencial dentro dos conceitos psicanalíticos”, conta Verônica Fleith, coordenadora do curso.
Para a psicóloga e professora do curso Suely Poitevin, o ambiente foi de troca de conhecimentos entre alunos e professores. “A transmissão de conhecimento possibilita que o profissional reflita sobre seu trabalho, portanto esse curso foi um aperfeiçoamento para nós também”, afirma. Suely conta também que a presença de um grupo interessado, participativo e com afinidade com o tema possibilitou esse ambiente de troca de experiências.
Discussão enriquecedora
Para o terapeuta ocupacional Cláudio Aurélio de Souza, que trabalha com crianças abrigadas em casas-lares, o curso foi bastante esclarecedor. De acordo com ele, o curso ensinou a perceber a enxergar o ponto de vista do sujeito atendido. “A gente vê principalmente a história do sujeito, como ele cresceu, e começa a compreender o porquê dele se apresentar de uma determinada maneira”, conta.
Já a também terapeuta ocupacional Márcia Regina Motta afirma que o curso acrescentou muito para a prática profissional, a partir da articulação entre a psicanálise e a terapia ocupacional. “O curso deu uma boa base de psicanálise, e foi possível também articular a prática com a teoria”, complementa. Além disso, Márcia acredita que a discussão foi enriquecedora, ao apresentar um pensamento crítico à prática profissional.
A assistente social Cristina Alves conta que a articulação dos conceitos teóricos da psicanálise com sua área de atuação foram importantes para sua vida profissional. “A principal contribuição da psicanálise é alargar o domínio dos atos inconscientes que tem um sentido, como os atos falhos, os sonhos e as neuroses, que exprimem intenções e desejos”, afirma. “A metodologia de Freud pode ser uma possibilidade de caminho para a materialização dos objetivos da assistência social, de exercício da cidadania plena”.
No próximo ano, o curso será realizado aos sábados. As inscrições serão abertas em fevereiro.
A Associação SERPIÁ realiza o curso “Contribuições da Psicanálise para a Educação”, entre os dias 14 e 26 de novembro. Os alunos podem participar de aulas isoladas ou do curso completo. Para se inscrever, basta preencher o formulário online, e doar um brinquedo para o Natal da SERPIÁ. As palestras serão no Centro de Capacitação da Secretaria Municipal de Educação, na rua Dr. Faivre, 398. Confira a programação completa.
O curso é destinado a profissionais da educação de escolas regulares ou especiais, de todos os níveis de educação básica. É parte do projeto ‘Inclusão escolar de crianças e adolescentes com transtornos psíquicos e/ou problemas em seu desenvolvimento’, desenvolvido pelo Núcleo de Educação e Psicanálise da SERPIÁ em parceria com a Fundação de Ação Social de Curitiba (FAS).
Serão realizadas aulas expositivas dialogadas e orientações de casos concretos de inclusão escolar. Os objetivos principais são: articular conceitos de teoria psicanalítica e a vivência educativa, discutir sobre os impasses e desafios da inclusão escolar, ressaltar a importância da interdisciplinaridade nas práticas educativas de inclusão e oferecer instrumentos de leitura e interpretação aos impasses vivenciados na educação inclusiva.
Para maiores informações, entre em contato com a SERPIÁ:
Fone: (41) 3015-2045.
E-mail: serpia@serpia.org.br
O Núcleo de Psicanálise e Educação da Associação SERPIÁ, em conjunto com o Núcleo de Estudos em Psicanálise e Educação da Universidade Federal do Paraná (UFPR), realizou nos dias 19 e 20 de setembro a II Jornada de Psicanálise e Educação. O tema foi a inclusão escolar e contou com 116 participantes. O evento aconteceu no Anfiteatro 100 da Reitoria da UFPR, em Curitiba.
Para Maria Augusta de Mendonça Guimarães, Coordenadora Executiva e Terapêutica da SERPIÁ, o evento foi um sucesso. “Não só correspondeu nossas expectativas como superou”, conta. Ela afirma que existe muita demanda por parte dos professores para saber como deve ser feita a inclusão escolar e o evento ajudou as pessoas a refletir sobre suas práticas dentro da sala de aula.
Durante os dois dias, foram realizadas cinco mesas redondas e três palestras, duas delas com o psicanalista Fernando Colli, do Grupo Ponte, da Associação Lugar de Vida, de São Paulo. Maria Augusta afirma que o trabalho de Colli e da associação são muito importantes para o tema da inclusão. Desde 1990, o Grupo Ponte providencia tratamento terapêutico para crianças com transtorno psíquico, o que implica em levar essas crianças para o universo escolar.
Além disso, houve exposição dos trabalhos realizados no departamento de Educação da UFPR e nos Núcleo de Estudos de Psicanálise e Educação da SERPIÁ, uma palestra sobre prevenção e detecção dos riscos psíquicos na educação infantil (com a professora da PUC-PR Rosa Maria Marini Mariotto) e uma apresentação do panorama da inclusão escolar no estado.
Para a pedagoga Isis Romankiu, a Jornada foi riquíssima. “É um tema que deve ser bastante discutido, é sempre pertinente”, afirma. De acordo com ela, o evento resgatou a função da escola no processo terapêutico e ajudou a colocar em destaque a criança como sujeito.
O que é inclusão escolar?
Inclusão escolar significa juntar os alunos portadores de necessidades especiais às outras crianças, colocá-los nas mesmas salas sob as mesmas condições de aprendizado. Maria Augusta aponta que esse tema é particularmente importante para os professores: mas de tão recente, eles ainda encontram dificuldades para lidar com esses alunos.
A inclusão escolar propicia às crianças com transtornos psíquicos muito mais do que a simples educação formal. Nas escolas regulares, criam-se laços com a sociedade, o que promove tanto efeitos terapêuticos quanto perspectivas de vida para essas crianças. “A inclusão escolar faz a criança sentir que ela tem um lugar no mundo”, sintetiza Augusta.
Para os professores, esse processo também é importante. Lidar com alunos especiais ajuda-os a se livrar de preconceitos e lidar com as diferenças e potencialidades de cada pessoa. No entanto, é um processo difícil: é preciso discutir esse assunto e aprender com as experiências dos outros professores e psiquiatras para que esse desafio possa ser superado. É por isso que um evento como a Jornada, que estimula a discussão e o aprendizado sobre a inclusão escolar, é tão importante para toda a educação.

