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Por Ingrid Cadore
Grande sabedoria é saber olhar a vida de maneira diversa que a habitual, ir além das aparências, descobrir novas maneiras de otimizar nosso tempo para aprender a fazer alguma coisa nova, ou resgatar velhos sonhos.
Sim, lembra daqueles sonhos simples, que estão guardados no mais longínquo recanto de nossa alma?
Lembra daquele tempo em que você se entregava aos prazeres singelos como cultivar uma pequena horta ou uma roseira; em que pescar era um simples pretexto para ficar à sós com seus pensamentos, ouvindo o barulhinho gostoso da água nas pedras?
Ou, então, na sua infância quando você ia espiar a “oficina” do seu avô onde ele restaurava brinquedos, pintava a sua bicicleta, que ficava novinha.em folha..
Onde ficou seu prazer em fazer um bolo e poder curtir o aroma que se espalha pela casa, ou a vontade secreta de grafitar um muro?
Que tal olhar a vida com novos olhos e chegar ao final do dia se fazendo se perguntando: “o que me surpreendeu hoje? O que me perturbou ou me emocionou hoje? O que me inspirou hoje?”
O trabalho voluntário pode ser uma oportunidade de desenvolver um talento novo ou resgatar talentos já desenvolvidos, mas que não estão sendo requisitados no nosso cotidiano. Também pode ser uma forma de exercermos nossos talentos num contexto novo, colocando-os a serviço de uma instituição.
Depois de algum tempo você poderá se surpreender com alguns efeitos do seu trabalho voluntário na sua carreira profissional e na sua vida:
- ao realizar de maneira nova tarefas antigas;
- ao se sentir renovado por causa do valor que seu trabalho social representa na vida das pessoas beneficiadas por aquela instituição;
- ao se revelar diante de seus colegas de trabalho e familiares com sua capacidade empreendedora, que suas tarefas do cotidiano às vezes não possibilitaram revelar;
- ao enxergar a vida com olhos de poeta, de jornalista, de criança… com os olhos daquelas pessoas excluídas que até então só eram percebidas como um estorvo, como se nós não tivéssemos nenhuma responsabilidade social com estes problemas!
Todas as vidas têm um significado. Encontrar o sentido das coisas nem sempre é fazer algo diferente. Por vezes, é somente enxergar o cotidiano, a rotina de uma forma diferente. Mas o trabalho voluntário em alguma instituição pode ser um forte agente de mudança.
A Associação SERPIÁ (Serviços e Programas da Infância e Adolescência), instituição que oferece terapia a cerca de 120 crianças e adolescentes em sofrimento psíquico, está ampliando o seu grupo de voluntários.
Por Ingrid Fabian Cadore
Texto elaborado por Ingrid Fabian Cadore a partir de um artigo da revista Spielen uns Lernen, dezembro 1996.
Três desejos são atendidos pela Fada Madrinha ou pelo Gênio da Lâmpada. E o agraciado precisa desejar com sabedoria…pois os desejos realizados podem trazer conseqüências indesejadas, como acontece em alguns contos de fadas.
Sábios desejos são aqueles que vem de dentro, são aqueles que dão ao agraciado aquilo que ele mais precisa. Nem todos os presentes podem ser comprados em lojas… Em certo sentido nossas crianças pequenas e seus desejos são os verdadeiros sábios deste mundo. Eles não nascem com fissura para ganhar uma Barbie ou outros brinquedos de sucesso. Nossas crianças pequenas nos mostram que tem desejo de presença, confiança, paciência e compreensão. Tudo bem, mais tarde eles são contaminados pelo querer-ter: a boneca da amiga, aquele filme de video, o brinquedo de sucesso da televisão. E nós adultos compramos, compramos e compramos e nem notamos em que momento o presentear se tornou um exigir e atender. Mais e sempre mais e por fim a criança está só no seu quarto e nem sabe o que fazer com tantos tesouros. Seus desejos foram banalizados.
Neste Natal o que seu filho mais precisa? Você parou para pensar realmente na fase de desenvolvimento que ele está, o que o encanta, do que precisa? Ao lado do tradicional presente porque não compartilhar algumas horinhas aconchegantes para ler uma história juntos ou investir numa redescoberta da cidade, numa “caça aos odores e sabores de Natal” ( em que lugar da minha cidade existem os cheirinhos de Natal mais deliciosos? Quais as fruta de época ? Quais as cores predominantes, os sons mais singelos? onde existe um órgão na cidade? que música produz? ainda há sinos em algum lugar? Qual a vitrine mais encantadora, o espetáculo mais tocante? etc etc). E os adultos? Que tipo de sensibilização precisam? Será que meu marido ainda consegue se emocionar diante de um prato de “torteie” que era servido nos Natais de sua infância? Como posso lembrá-lo de incluir na sua vida aquelas coisas que sempre desejou fazer e que ainda não pode realizar? Seria o caso de garimpar antigas fotografias, particularmente tocantes? Como vai aquela pessoa idosa da família cujo desejo é ter companhia para passear um pouco na cidade ? E a minha criança interior, o que está pedindo?
O tempo do advento, o tempo da espera do Natal é um tempo lindo para se dedicar a estes desejos especiais e tempo é sem dúvida o presente mais precioso. Dedicar tempo a alguém , fazendo-lhe a vontade, confeccionando um pequeno presente…é o presente mais importante que pode haver.
Por Ingrid Fabian Cadore
Texto apresentado na jornada de estudos a Inclusão escolar – diálogo possível do terapêutico com a educação. Mesa redonda: A relação do brincar, da arte e da cultura com o processo de estimulação do potencial criativo. – 12 de agosto de 2006.
“Pela oportunidade de vivenciar brincadeiras imaginativas e criadas por elas mesmas, as crianças podem acionar os seus pensamentos para a resolução de problemas que são importantes e significativos. Proporcionando a brincadeira, portanto, cria-se um espaço no qual a criança pode experimentar o mundo e interiorizar uma compreensão particular sobre as pessoas, os sentimentos e os diversos conhecimentos”.
(Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil, 1998 p.28)
Portanto, neste importante documento, a brincadeira imaginativa e criada por ela mesma é reconhecida como uma importante forma de:
· acionar os pensamento para a resolução de problemas significativos
e criando-se um espaço para brincadeira a criança pode:
· experiênciar o mundo
· interiorizar uma compreensão particular sobre pessoas e
· elaborar sentimentos e os diversos conhecimentos
O que é o livre brincar?
Livre brincar é aquele que tem um fim de si mesmo, pelo puro prazer de brincar. São estas brincadeiras imaginativas e criadas por elas mesmas, contempladas no Referencial Curricular Nacional para Educação Infantil (1998).
Para compreendermos este livre brincar convido a todos, para durante um segundo se transportarem para o lugar favorito em que brincavam quando crianças: como era? Quem estava lá? Do que mais gostavam de brincar?
Pois é deste brincar de que estamos falando. É um brincar em que não há um compromisso com o:
· desempenho – cada um brinca do “seu jeito”, brinca o que lhe vai pela alma. Diferente de uma atividade esportiva, ou de uma forma divertida de se aprender a tabuada. Nem com o resultado: a criança brinca um certo tempo, por inteira, emitindo sons e gestos, às vezes repetindo muitas vezes a cena, dando um final, ou, interrompendo este brincar e passando para outra brincadeira ou outro compromisso. Se repetida, pode terminar de um outro jeito, bem diferente. E é muito comum que se seja repetida, quando o ambiente é favorável.
É que esta brincadeira tem um significado particular, único, para aquela criança. Ela brinca, para satisfazer a curiosidade, experimentar, compreender do que gosta e do que não gosta, compreender o mundo e as pessoas. O tempo todo diz de si, revela aspectos de como pensa, de como aprende e o que sente em relação a si mesma, aos colegas, à professora, aos pais, enfim, à vida.
Não queremos dizer que no livre-brincar não haja limites ou regras de organização dos materiais e das crianças que estão brincando. Como antigamente, talvez na cena que vocês evocaram a pouco, quando se brincava em quintais e ruas, em grupos pequenos de amigos de diversas idades, a mãe (ou outro adulto de referência) estabelecia regras de segurança e de boa convivência, sendo chamada quando o grupo de crianças não se entendia ou precisava de ajuda. Ela também exigia que tudo fosse guardado nos seus lugares na hora estabelecida para a brincadeira terminar.
Na escola, a complexidade é muito maior:
· porque a primeira compromisso da escola é com o processo de aprendizagem do aluno;
· porque há um grande número de alunos e, ao institucionalizarmos o livre brincar também instituímos um certo artificialismo. Se não houver um professor ou um educador brinquedista disponível para organizar os lugares e o tempo- livre para as brincadeiras, negociar regras, sugerir novas brincadeiras, enfim, se não houver um adulto que aposte na importância deste brincar e mediar as necessidades dos alunos, este brincar não acontece.
Este brincar parece mais viável quando se pensa nas crianças, alunos da pré-escola. E depois, o aluno das primeiras séries, não precisa mais brincar livremente? Ele já desenvolveu sua imaginação, elaborou todas as suas questões de vida, suas questões com a aprendizagem, suas questões de convivência social com os outros alunos? E para frisarmos o tema desta palestra, este aluno do ensino fundamental já aprendeu a conviver com suas diferenças e conviver e interagir com outro aluno que é diferente?
Por que brincar e jogar livremente na escola?
O livre brincar no ensino fundamental:
· facilita e otimiza o processo de aprendizagem e
· a convivência social na escola.
Inicialmente precisamos compreender que ao lado das brincadeiras de faz-de-conta, das histórias e dos desenhos, pouco a pouco, os jogos de regras em grupo, podem atender:
· as necessidades de se expressar,
· elaborar sentimentos,
· aprender de um outro jeito,
· coordenar pontos de vista para se chegar num consenso,
· questionar para se aceitar a regra (diferença entre obedecer ou aceitar uma regra).
Estou me referindo tanto a aqueles que se joga ao ar livre, com um mínimo de materiais, como excelentes jogos de tabuleiro, que se pode jogar até mesmo na sala de aula.
É evidente que não vamos adotar jogos de regra em grupo para que os alunos aprendam a jogá-los. Dependendo de como é feita a mediação (do professor e/ou educador brinquedista) é que estes jogos serão recursos facilitadores não só da aprendizagem, mas, da elaboração das questões emocionais e do convívio social , possibilitando a inclusão do aluno que é diferente.
Quando penso na inclusão, penso em primeiro lugar no aluno do ensino regular que
· “está à perigo”. Aquele aluno que está fracassando, que ninguém mais “agüenta”, que é agressivo que perturba os outros, que está a um passo de ser excluído da escola.
· aluno que tem necessidades especiais decorrentes de uma deficiência física ou mental,
· e, em bem menor escala, o aluno com neurose grave ou psicose.
De qualquer maneira, todos alunos, mas em particular, os “diferentes” podem se beneficiar muito quando o brincar e jogar são contemplados na escola com o posicionamento que foi falado anteriormente.
A prática tem demonstrado que estes alunos conseguem ser incluídos quando alguém da escola “aposta” no sucesso deles. Este alguém pode ser o professor de turma, o educador brinquedista ou outro adulto de referencia para o aluno. E o brincar / jogar e outras atividades lúdicas podem ser um recurso otimizador em conjunto com todas as outras iniciativas de inclusão da escola.
Como viabilizar o livre brincar e jogar na escola?
Encontrar alternativas que resgatem o ser humano na sua totalidade, sensível e ético, capaz de transformar a sociedade em que vive, capaz de produzir conhecimentos com autonomia, espírito crítico e investigativo é a proposta que desafia não só os profissionais da educação, como também os profissionais da saúde e das ciências sociais.
A brinquedoteca da escola pode ser um grande aliado, um núcleo irradiador de humanidades. O educador brinquedista é o profissional que acrescentou à sua formação de profissional da educação uma formação específica para poder mediar, através de brincar/jogar e utilização de outros recursos lúdicos, as questões pertinentes ao desenvolvimento emocional, social , físico, e da aprendizagem do aluno.
A brinquedoteca da escola é um lugar preparado para suscitar e acolher o livre brincar, jogar, ou outra atividade criativa do aluno. Seu âmbito pode ser restringido ao tempo livre do aluno na escola ou, ser muito mais abrangente, quando estiver inserida no Projeto Político e Pedagógico da Escola.
A brinquedoteca da escola é diferente da sala de recursos, ou sala de jogos. Este acervo de materiais é utilizado com o fim claro de facilitar uma aprendizagem específica (ex: jogos pedagógicos).
A brinquedoteca como atividade extra-classe da escola acolhe e atende as necessidades de brincar do aluno ( aquilo que precisa elaborar), trabalha a integração, auto-estima, possibilidade de experimentar e de errar, possibilidade de criar. Auxilia na aprendizagem não formal de conteúdos (conceitos de matemática ou de linguagem, por ex.), propostos em jogos que nem lembram a ensino formal. Eventualmente promove a integração de pais e professores.
A brinquedoteca inserida Projeto Político e Pedagógico da escola (regular e especial):
- lugar privilegiado para se observar como aluno pensa e aprende, alem de possibilitar novas formas de compreensão desse aluno , pois ele diz de si e se revela ao brincar e jogar. Esta forma multifacetada de entender o aluno possibilita alternativas de intervenção de todos que atuam com ele. Ex: uma aluna, ao brincar de “faz de conta” enrola uma mantinha e brinca com ela “como se” fosse seu bebê. Embala “seu bebê”, emite sons ou palavras, revelando que este bebê tem um significado que é único para esta criança.. Este ”bebê”, hipoteticamente falando, pode ser ela mesma, pode ser um bebê que tem um significado particular para ela, tem um valor pessoal, único para essa criança (o que na psicanálise se chama de significante). De que bebê ela está falando? Provàvelmente não sabemos, mas se não interferirmos ela vai brincar de acordo com sua necessidade e se beneficiar muito com este brincar. Enfim, se percebe que ela está simbolizando. Mas pela expressão, ela revela que sabe que está usando uma manta para brincar que é um bebê. Já uma criança psicótica pode até se referir ao bebê, mas vai brincar com o bebê como um objeto concreto, ele não simboliza. A diferença é sutil, mas uma pessoa sensível, percebe esta diferença. Esta forma do aluno se revelar e que foi percebida pelo professor ou educador brinquedista pode gerar novas alternativas de se atuar com ele.
- lugar onde se suscita ou fortalece vínculos: dos alunos entre si; destes com a equipe da escola; alunos, pais e equipe da escola e da equipe entre si. O vínculo afetivo entre os educadores da escola, muitas vezes é suscitado ou fortalecido quando eles brincam ou jogam juntos. Uma equipe que consegue jogar junto, também descobre maneiras de trocar experiências e enfrentar as dificuldades. Por ex: Como um educador brinquedista lida com a situação quando um jogador esta “roubando” no jogo? E o professor, como lida com a questão quando percebe que um aluno está “colando na prova?” Será que alem da via disciplinar existe uma outra via para se lidar com esta questão? Será que ambos (professor e educador brinquedista) poderiam definir uma estratégia conjunta para que na vivência com jogos este aluno possa experienciar as conseqüências de não aceitar a regra? Será que este aluno só a prendeu a obedecer regras, sem questioná-las e aceita-las por entender que é o melhor para todos ?
- lugar que promove a interdisciplinaridade quando suas atividades são integradas com as propostas da escola gerando um leque de possibilidades de inclusão. Isso requer que o educador brinquedista seja incluído nas reuniões da escola onde se analisa as dificuldades dos alunos, podendo contribuir com sugestões;
- lugar para se trabalhar a auto-estima positiva, realçar competências, descobrir formas de se lidar com as diferenças. Ex: modificar a regra do jogo para possibilitar a inclusão, modificar o brinquedo para possibilitar o uso de alguém com uma deficiência etc. Estas intervenções, quando feitas de maneira adequada, dizem ao aluno que “podemos jogar juntos, apesar de nossas diferenças”. Geralmente são percebidas pelo aluno “diferente” como acolhimento. Isso gera, muitas vezes um sentimento de confiança em si e nos outros, fazendo com que ele mesmo aprenda como se incluir nos outros momentos do cotidiano escolar. Existem muitas estratégias para se incluir, desde as mais simples como se certificar que todos os jogadores tem o desempenho exigido, ou oferecer de “jogar junto” com o jogador que ainda não é capaz de uma ação. Neste caso, isso é feito de maneira natural, e o educador brinquedista estimula o jogador a jogar sozinho em tudo o que é possível, apenas o auxilia naquela ação que ainda não é possível. Outro exemplo de mediação: Jogo do Coelhinho Max. O que o mediador diz é muitas vezes produz o efeito.
Como viabilizar a brinquedoteca na escola inclusiva:
- um profissional da área da educação com formação de educador brinquedista em período integral, que planeja, orienta as atividades, acolhe a equipe da escola e capacita os colaboradores ( via de regra, estagiários voluntários).
- um local organizado para este fim, que suscite a vontade de brincar e jogar com “cantos” temáticos e lugares definidos para se guardar os materiais.
- outros locais da escola que, em certos horários, ficam disponibilizados para a brinquedoteca.
Assim como a biblioteca que não atinge suas finalidades sem a atuação de um bibliotecário, também a brinquedoteca só atinge este nível de otimização quando dirigida por pessoa qualificada para tal.