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Por Maria Augusta de Mendonça Guimarães
Eu decidi falar sobre esse tema a partir da minha experiência em uma instituição que faz atendimento a crianças e adolescentes e conta com uma equipe interdisciplinar: psicanalistas, fonoaudiólogos, T.O.’s, musicoterapeutas, fisioterapeuta, pedagogos e educadores. Tal experiência me mobiliza a questionar por quais vias devemos direcionar este trabalho. Hoje em dia, após as discussões sobre reforma psiquiátrica, o advento dos CAPS’s e de novas ações no campo da saúde mental, é comum nos depararmos com práticas nas quais há vários profissionais envolvidos, ou seja, diferentes especialidades. O que eu gostaria de trazer, então, são algumas reflexões que fui desenvolvendo a partir deste trabalho interdisciplinar, pensando particularmente na clínica da adolescência.
Confira a versão completa.
Por Maria Aparecida de Luna Pedrosa
A SERPIÁ, como instituição, é reconhecida na comunidade pelo trabalho que realiza, marcado pela discursividade psicanalítica. “A SERPIÁ realiza sua missão voltada à prevenção e o restabelecimento da saúde mental de crianças e adolescentes” e amplia, neste sentido, seu investimento de trabalho atendendo às famílias. Somado a isso se preocupa, desde o início de suas atividades, em dispensar atenção à Educação.
Realiza suas atividades em torno daquilo que é reconhecido como efeitos, resultados de relações com as realidades experimentadas pelos indivíduos. Sejam da ordem que forem, essas realidades são experiências nos laços nem sempre vividas com satisfação, daí o adoecimento. A SERPIÁ trabalha com o adoecimento e sua prevenção de modo bastante apurado e responsável, inclusive no campo da Educação, desenvolvendo projetos de inclusão em parceria com a Universidade Federal do Paraná e a Fundação de Ação Social.
Como se pensa em definir a educação?
Sabemos que a Educação teve sempre por objetivo formar os indivíduos, este é um dado e fato historicamente reportados como ideal advindo desde a cultura grega. Cito Andréa Brunetto, que em seu livro Psicanálise e Educação, compara o mestre educador com o oleiro, aquele que modelava a argila. A educação teve esse papel na história, lembrando ao humano de sua submissão às leis e regras e de que só obedecendo de modo incontinente ao mestre ele poderia conhecer, se desenvolver, produzir técnicas e se aperfeiçoar.
A Educação teve como tarefa, historicamente traçada, cuidar da formação do homem, de modo a preservar os valores da Cultura e a prover a sociedade de cidadãos dignos – esse é um ideal da sociedade grega -.
Inegável o desejo de buscar a formação, mas por qual método?
A Educação na contemporaneidade tem buscado ampliar e alterar suas práticas e seus métodos para atender aos indivíduos que não correspondem aos ideais da Sociedade e da Cultura. Vem buscando modelos, ferramentas conceituais para oferecer o atendimento, especialmente àqueles que apresentam algum grau de comprometimento em sua organização psíquica ou orgânica e corporal.
Vem de algumas décadas as reflexões sobre os modelos de ensino destinados aos indivíduos considerados “especiais”, porém é recente a preocupação em atendê-los ao lado dos indivíduos considerados, diferentemente, capazes – logo “não especiais”-.
O educador, antes formado para atender aos capazes, é hoje tomado pela demanda política e ética de atender em conjunto os indivíduos “especiais” e capazes – ou não especiais -. Ora, que tempos! A ciência, no campo da Educação, qualifica os indivíduos de modo a que as diferenças se mantenham, porém devendo desfazer a diferença.
O campo da formação dos educadores os dotou e formou sob um pensamento ainda determinado por princípios focados no Ideal Grego. Parece então estar este campo pouco ou insuficientemente preparado para o necessário enfrentamento com o diferente, a não ser para tratar o diferente na diferença e tomando esta diferença como especialidade. É por isto que nos deparamos com os tratamentos concebidos como especiais, pois ainda convive-se com a qualificação do sujeito em sofrimento, o aluno especial – onde inclusive ainda lê-se aluno (aquele que não brilha, não tem luz) e especial (o diferente)-.
O sujeito qualificado como capaz não é especial? Por quê?
O que a Psicanálise pode então começar a ensinar aos educadores?
Penso que pode contar que os humanos – o gênero humano – poderia ser definido, em princípio, como especial, se seguirmos a lógica que a ciência propõe para pensar aquele sujeito com sofrimento por algum comprometimento físico ou mental. Ora, foi um psicanalista bastante conhecedor da ciência médica e do sofrimento com as deficiências em crianças, o senhor Sigmund Freud, que cometeu a maior subversão ao anunciar que o humano está desde sempre marcado pela experiência de não poder tudo, não poder encontrar “toda” a satisfação que poderia esperar e nem atender a tudo que lhe fosse demandado. Enfim, o que diz é que o humano, embora deseje a perfeição, não pode atender ao ideal de perfeição. O humano é marcado, já no ato de seu nascimento, pela separação do corpo daquela que o protegeu plenamente e justo ao nascer fica na mais absoluta dependência das ações, desejos e ensejos de outros humanos para sua sobrevivência. E, caso não receba a atenção necessária, poderá não encontrar porvir.
Na sua dependência ele está sob o signo de muitas faltas, ausências, aí se fazendo o desenho daquilo que ainda o marca como incompleto. Então se conclui que “todo humano”, ao ser incompleto, é especial.
A vida do humano se faz, se constitui e se organiza sobre essa experiência de incompletude, ele segue sendo um especial e dependente e estas condições têm sua importância, pois é em torno destas diferenças que todos os ganhos, em suas diferentes modalidades, ocorrerão; as relações se estabelecerão em suas diversas possibilidades e qualidades – assim se constituem os laços, os grupos, a sociedade, fazendo a civilidade ou não, a civilização possível e a cultura.
A Psicanálise, por ter se ocupado do que é o especial no gênero humano, ou seja, por ter se ocupado dos efeitos do que conhecemos por “castração”, pode ensinar que é por sabermos que todos somos imperfeitos, castrados, que podemos efetiva e verdadeiramente “educar”. Porém, atendendo e tratando no ato de educar, no ato de tratamento do que pode ser esse ideal para aqueles sujeitos, respeitando a singularidade, as proporções que cada um pode dar ao seu desejo de saber. Não atendendo ao ideal que sempre se supõe, infelizmente, como o ideal que uma Sociedade ou Cultura preestabeleceu aos seus cidadãos.
Ao educador resta então, rever sua posição em relação ao que supõe sobre os ideais para os sujeitos, da formatação ou da montagem, porque estaria somente atendendo a demanda, ao Ideal Social.
A SERPIÁ não é surda aos Ideais Sociais e tampouco a Psicanálise e seus praticantes. A SERPIÁ abraça a causa da Psicanálise e a toma como modelo de pensar o sujeito, isto por acreditar que pode cuidar do sofrimento, do adoecer daqueles que se deparam com a demanda impossível dos Ideais Sociais. Não são negados os princípios e valores sociais, estes servem de referência para que os sujeitos possam descobrir nas suas demandas “especiais” o desejo que pode abrir caminho para dar curso a uma história e vida, sem depender dos efeitos de uma condição física ou psíquica.
Referência:
BRUNETTO, A. Psicanálise e Educação
Por Maria Augusta de Mendonça Guimarães
Na clínica psicanalítica, a angústia coloca o analista frente a um tema complexo e já muito discutido, que ainda mobiliza questões para aqueles interessados no estudo da psicanálise. Tanto Freud quanto Lacan debruçaram-se sobre esse assunto, bastante freqüente em suas obras, quer em textos específicos ou articulado com outros temas. Freud fez algumas modificações ao longo do tempo em relação à definição de angústia, e Lacan acrescentou valiosas contribuições, relacionadas principalmente à relação angústia – objeto.
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Por Ingrid Cadore
Grande sabedoria é saber olhar a vida de maneira diversa que a habitual, ir além das aparências, descobrir novas maneiras de otimizar nosso tempo para aprender a fazer alguma coisa nova, ou resgatar velhos sonhos.
Sim, lembra daqueles sonhos simples, que estão guardados no mais longínquo recanto de nossa alma?
Lembra daquele tempo em que você se entregava aos prazeres singelos como cultivar uma pequena horta ou uma roseira; em que pescar era um simples pretexto para ficar à sós com seus pensamentos, ouvindo o barulhinho gostoso da água nas pedras?
Ou, então, na sua infância quando você ia espiar a “oficina” do seu avô onde ele restaurava brinquedos, pintava a sua bicicleta, que ficava novinha.em folha..
Onde ficou seu prazer em fazer um bolo e poder curtir o aroma que se espalha pela casa, ou a vontade secreta de grafitar um muro?
Que tal olhar a vida com novos olhos e chegar ao final do dia se fazendo se perguntando: “o que me surpreendeu hoje? O que me perturbou ou me emocionou hoje? O que me inspirou hoje?”
O trabalho voluntário pode ser uma oportunidade de desenvolver um talento novo ou resgatar talentos já desenvolvidos, mas que não estão sendo requisitados no nosso cotidiano. Também pode ser uma forma de exercermos nossos talentos num contexto novo, colocando-os a serviço de uma instituição.
Depois de algum tempo você poderá se surpreender com alguns efeitos do seu trabalho voluntário na sua carreira profissional e na sua vida:
- ao realizar de maneira nova tarefas antigas;
- ao se sentir renovado por causa do valor que seu trabalho social representa na vida das pessoas beneficiadas por aquela instituição;
- ao se revelar diante de seus colegas de trabalho e familiares com sua capacidade empreendedora, que suas tarefas do cotidiano às vezes não possibilitaram revelar;
- ao enxergar a vida com olhos de poeta, de jornalista, de criança… com os olhos daquelas pessoas excluídas que até então só eram percebidas como um estorvo, como se nós não tivéssemos nenhuma responsabilidade social com estes problemas!
Todas as vidas têm um significado. Encontrar o sentido das coisas nem sempre é fazer algo diferente. Por vezes, é somente enxergar o cotidiano, a rotina de uma forma diferente. Mas o trabalho voluntário em alguma instituição pode ser um forte agente de mudança.
A Associação SERPIÁ (Serviços e Programas da Infância e Adolescência), instituição que oferece terapia a cerca de 120 crianças e adolescentes em sofrimento psíquico, está ampliando o seu grupo de voluntários.
Por Rosecler Alice da Silva
A psiquiatria é uma especialidade médica que tem como funções básicas o diagnóstico e o tratamento de doenças ou sintomas de origem psíquica. Mais do que atribuir um diagnóstico ou medicar, passa antes por questões como identificar fatores de risco ou proteção, vulnerabilidades físicas, emocionais, genéticas e sociais, além, é claro, de estabelecer parâmetros científicos baseados em evidência para formular uma hipótese diagnóstica que é essencial para o norteamento do planejamento e tratamento clinico.
Todas essas informações a respeito do paciente são mais facilmente e mais fidedignamente colhidas e pensadas se ocorre uma troca entre os diversos profissionais que atendem essa pessoa. Isso é ainda mais verídico em psiquiatria da infância e adolescência, na qual o tratamento de crianças e adolescentes em sofrimento psíquico exige o envolvimento de diversos áreas. Na SERPIÁ podemos ter essa oportunidade de trocas de experiências e visões de atendimento entre os profissionais. Além disso, contamos com outros colegas não envolvidos diretamente no caso para poder ajudar a pensar as estratégias de intervenção, devendo esses aspectos ser constantemente estimulados e praticados. Ambos aprendemos e o mais favorecido é o paciente instrumento de nossa atenção.
Considero o trabalho em equipe uma queda do modelo onde reina o narcismo e onitpotência do profissional que coloca adjetivos possessivos na pessoa que lhe procura (“MEU paciente!”) – postura que apenas encobre e atrapalha uma boa assistência. O trabalho multidisciplinar é permeado de respeito, flexibilidade, aceitação, abertura e acima de tudo reconhecimento de que não existem verdades absolutas, mas sim vários caminhos para ajudar os pacientes e familiares que chegam até nós.
Por Maria Augusta de Mendonça Guimarães
A adolescência é uma fase da vida com características extremamente peculiares, onde o indivíduo se vê deparado com uma série de atitudes e escolhas que deve tomar. Inicia-se um processo de individualização significativamente ansiogênico para quem até então estava dependente do núcleo familiar. A eclosão dos hormônios e o desenvolvimento corporal são algumas das mudanças que o adolescente tem dificuldade de lidar, além de outras como o afloramento da sexualidade, as conseqüentes escolhas objetais, as definições sobre seus interesses e os posicionamentos perante os mais variados assuntos; e tudo se dando nos tempos da sociedade de consumo, da busca do prazer imediato e da solidão típicos da pós-modernidade. Além disso, o adolescente ainda precisa escolher uma profissão ou, pelo menos, é cobrado pela sociedade a entrar, de alguma forma, no mercado de trabalho. Portanto, faz-se necessário algumas considerações sobre esse período da vida tão conturbado que é a adolescência.
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Por Ingrid Fabian Cadore
Texto elaborado por Ingrid Fabian Cadore a partir de um artigo da revista Spielen uns Lernen, dezembro 1996.
Três desejos são atendidos pela Fada Madrinha ou pelo Gênio da Lâmpada. E o agraciado precisa desejar com sabedoria…pois os desejos realizados podem trazer conseqüências indesejadas, como acontece em alguns contos de fadas.
Sábios desejos são aqueles que vem de dentro, são aqueles que dão ao agraciado aquilo que ele mais precisa. Nem todos os presentes podem ser comprados em lojas… Em certo sentido nossas crianças pequenas e seus desejos são os verdadeiros sábios deste mundo. Eles não nascem com fissura para ganhar uma Barbie ou outros brinquedos de sucesso. Nossas crianças pequenas nos mostram que tem desejo de presença, confiança, paciência e compreensão. Tudo bem, mais tarde eles são contaminados pelo querer-ter: a boneca da amiga, aquele filme de video, o brinquedo de sucesso da televisão. E nós adultos compramos, compramos e compramos e nem notamos em que momento o presentear se tornou um exigir e atender. Mais e sempre mais e por fim a criança está só no seu quarto e nem sabe o que fazer com tantos tesouros. Seus desejos foram banalizados.
Neste Natal o que seu filho mais precisa? Você parou para pensar realmente na fase de desenvolvimento que ele está, o que o encanta, do que precisa? Ao lado do tradicional presente porque não compartilhar algumas horinhas aconchegantes para ler uma história juntos ou investir numa redescoberta da cidade, numa “caça aos odores e sabores de Natal” ( em que lugar da minha cidade existem os cheirinhos de Natal mais deliciosos? Quais as fruta de época ? Quais as cores predominantes, os sons mais singelos? onde existe um órgão na cidade? que música produz? ainda há sinos em algum lugar? Qual a vitrine mais encantadora, o espetáculo mais tocante? etc etc). E os adultos? Que tipo de sensibilização precisam? Será que meu marido ainda consegue se emocionar diante de um prato de “torteie” que era servido nos Natais de sua infância? Como posso lembrá-lo de incluir na sua vida aquelas coisas que sempre desejou fazer e que ainda não pode realizar? Seria o caso de garimpar antigas fotografias, particularmente tocantes? Como vai aquela pessoa idosa da família cujo desejo é ter companhia para passear um pouco na cidade ? E a minha criança interior, o que está pedindo?
O tempo do advento, o tempo da espera do Natal é um tempo lindo para se dedicar a estes desejos especiais e tempo é sem dúvida o presente mais precioso. Dedicar tempo a alguém , fazendo-lhe a vontade, confeccionando um pequeno presente…é o presente mais importante que pode haver.
Por Daniel Dias Brepohl
A inclusão escolar é um processo importante, e mesmo legalmente exigido, para crianças e adolescentes de nossa sociedade. Ao se tratarem de crianças com transtornos psíquicos, tal importância cresce na medida em que a inclusão pode favorecer o tratamento das mesmas.
Considerando-se a escola como espaço privilegiado da infância em nossa cultura, entende-se que o processo de inclusão escolar pode favorecer o reconhecimento da criança ou do adolescente com transtornos psíquicos como sujeitos de direitos e deveres dentro de uma comunidade. Além disto, este processo pode promover a (re)inserção da criança/adolescente na trama social (o que é próprio do humano), da qual se supõe ela excluída por razões concretas ou mesmo simbólicas.
No entanto, muitas vezes a permanência destas crianças e adolescentes em turmas de ensino regular é posta em questão por educadores, familiares, e a sociedade em geral, visto que, com freqüência, os alunos considerados casos de inclusão requerem uma atenção maior e mais especializada do professor. Este tipo de trabalho exige do professor não só a transmissão de conteúdos pedagógicos, como também o investimento na integração destes alunos com os colegas e com a instituição escolar, em geral. Tais exigências, entre outras, mobilizam questões subjetivas dos profissionais, principalmente acerca do lugar que ocupa como educador. Neste sentido, parece essencial um trabalho que vise apoiar o educador, promover seus questionamentos e construções acerca do assunto, além de contribuir para a sustentação do desejo que mobiliza o educador em seu trabalho cotidiano. É neste sentido que o Projeto de Inclusão Escolar propõe sua atuação.
Com o projeto de Inclusão escolar de crianças e adolescentes com transtornos psíquicos e/ou problemas em seu desenvolvimento integral, a Associação SERPIÁ, em convênio com a Fundação de Ação Social de Curitiba (FAS), pretende incluir e favorecer a permanência de 70 crianças, promovendo seu atendimento e acompanhando os educadores neste desafio.
Para atingir esse objetivo, foram criados grupos de interlocução entre os profissionais da SERPIÁ e as equipes pedagógicas das escolas participantes. O projeto estipula ainda que seja promovido um programa de capacitação destes professores, tomando como base e servindo de complemento às experiências vividas neste trabalho precedente.
Por Camila Siqueira G. Acosta Gonçalves
Música: Família – Titãs (álbum “Cabeça Dinossauro”)
Família, família
Papai, mamãe, titia,
Família, família
Almoça junto todo dia,
Nunca perde essa mania
Mas quando a filha quer fugir de casa
Precisa descolar um ganha-pão
Filha de família se não casa
Papai, mamãe, não dão nenhum tostão
Família ê
Familia á
Família
Família, família
Vovô, vovó, sobrinha
Família, família
Janta junto todo dia,
Nunca perde essa mania
Mas quando o nenê fica doente
Procura uma farmácia de plantão
O choro do nenê estridente
Assim não dá pra ver televisão
Família ê
Familia á
Família
Família, família,
Cachorro, gato, galinha
Família, família,
Vive junto todo dia,
Nunca perde essa mania
A mãe morre de medo de barata
O pai vive com medo de ladrão
Jogaram inseticida pela casa
Botaram um cadeado no portão
Família ê
Familia á
Família
A letra da canção acima ilustra a convivência familiar de maneira bem-humorada. Apresenta, portanto, a instituição com a qual a clínica também trabalha, que é a instituição familiar.
Tudo isso para refletirmos o papel da clínica frente à demanda por tratamento, que, em nosso caso, aparece legitimada na criança ou no adolescente.
Podemos dizer que quando a família aparece para acompanhar um paciente, ela canta uma canção que julga representá-la no mundo. Não podemos saber das minúcias dessa canção se ela for ouvida uma só vez, e por isso cada familiar envolvido no tratamento encontra um espaço para cantar a sua parte. E é aí que podemos perceber as minúcias de cada indivíduo em sua família, se há vozes que se complementam, ou mesmo casos em que uma voz abafa a outra, e até canções em que um familiar nem cante, só duble, pois por algum motivo ele não “entrou” nesse “embalo”.
O espaço de escuta das partes desse “todo” familiar começa já quando se marca uma consulta, quando uma queixa é apresentada, que deveria ser o tema da canção. Chegando na clínica, nas entrevistas preliminares, pode-se ter uma idéia de como tal tema será desenvolvido—por vezes esperamos escutar uma música e nos deparamos com outra bem diferente…
Na Brinquedoteca há a chance de acolher essa família de cantores junto a outras famílias. É um espaço de escuta e intervenção que pode levar cada cantor a procurar variações da canção, ou mesmo a fazer um solo inesperado ao perceber que seu momento não era bem só no refrão. Talvez na relação com os brinquedistas, as crianças ou outros indivíduos não tão familiares possam promover um encontro vocal, outras parcerias.
Nas atividades culturais, como as oficinas, cada participante terá novos recursos para incorporar em sua canção, ou mesmo para descobrir novas canções com as quais se identifique, talvez até passe a cantar em outro registro vocal, perceba que está mais comfortável cantando nos agudos do que nos graves…
A escuta dos acompanhantes é também um momento especial: pode ser nessa situação que estes ouçam, de fato, sua própria voz ecoando, a partir daí poderão perceber as potencialidades de suas vozes e as particularidades das vozes dos outros.
Já nos atendimentos clínicos, há a chance de perceber como a criança ou o adolescente se percebe nesse seu cantar. É um canto genuíno? É aquela canção que o representa?
Mais do que isso, há a chance de ele próprio perceber-se com voz e saber que seu timbre, apesar de próximo de algum de seus familiares, é único. E que, se repete o refrão ou responde a um solo com um silêncio, está construindo a sua expressão no mundo. E é capaz de responder por seu cantar.
Enfim, o importante é que esse espaço da SERPIÁ não mantenha o paciente e seus acompanhantes numa dinâmica de “disco quebrado”, num refrão incessante de pedidos que só têm voz quando unidos—em uma falsa harmonia—mas se calam quando há a oportunidade de se ouvir voz a voz, pessoa a pessoa.
É com lapsos na canção familiar, com trocas de letras, com uma ‘desafinadinha’ do coro que seus integrantes podem perceber suas demandas por novas peças musicais…
…obras-primas de cada sujeito em relação.
Por Ingrid Fabian Cadore
Texto apresentado na jornada de estudos a Inclusão escolar – diálogo possível do terapêutico com a educação. Mesa redonda: A relação do brincar, da arte e da cultura com o processo de estimulação do potencial criativo. – 12 de agosto de 2006.
“Pela oportunidade de vivenciar brincadeiras imaginativas e criadas por elas mesmas, as crianças podem acionar os seus pensamentos para a resolução de problemas que são importantes e significativos. Proporcionando a brincadeira, portanto, cria-se um espaço no qual a criança pode experimentar o mundo e interiorizar uma compreensão particular sobre as pessoas, os sentimentos e os diversos conhecimentos”.
(Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil, 1998 p.28)
Portanto, neste importante documento, a brincadeira imaginativa e criada por ela mesma é reconhecida como uma importante forma de:
· acionar os pensamento para a resolução de problemas significativos
e criando-se um espaço para brincadeira a criança pode:
· experiênciar o mundo
· interiorizar uma compreensão particular sobre pessoas e
· elaborar sentimentos e os diversos conhecimentos
O que é o livre brincar?
Livre brincar é aquele que tem um fim de si mesmo, pelo puro prazer de brincar. São estas brincadeiras imaginativas e criadas por elas mesmas, contempladas no Referencial Curricular Nacional para Educação Infantil (1998).
Para compreendermos este livre brincar convido a todos, para durante um segundo se transportarem para o lugar favorito em que brincavam quando crianças: como era? Quem estava lá? Do que mais gostavam de brincar?
Pois é deste brincar de que estamos falando. É um brincar em que não há um compromisso com o:
· desempenho – cada um brinca do “seu jeito”, brinca o que lhe vai pela alma. Diferente de uma atividade esportiva, ou de uma forma divertida de se aprender a tabuada. Nem com o resultado: a criança brinca um certo tempo, por inteira, emitindo sons e gestos, às vezes repetindo muitas vezes a cena, dando um final, ou, interrompendo este brincar e passando para outra brincadeira ou outro compromisso. Se repetida, pode terminar de um outro jeito, bem diferente. E é muito comum que se seja repetida, quando o ambiente é favorável.
É que esta brincadeira tem um significado particular, único, para aquela criança. Ela brinca, para satisfazer a curiosidade, experimentar, compreender do que gosta e do que não gosta, compreender o mundo e as pessoas. O tempo todo diz de si, revela aspectos de como pensa, de como aprende e o que sente em relação a si mesma, aos colegas, à professora, aos pais, enfim, à vida.
Não queremos dizer que no livre-brincar não haja limites ou regras de organização dos materiais e das crianças que estão brincando. Como antigamente, talvez na cena que vocês evocaram a pouco, quando se brincava em quintais e ruas, em grupos pequenos de amigos de diversas idades, a mãe (ou outro adulto de referência) estabelecia regras de segurança e de boa convivência, sendo chamada quando o grupo de crianças não se entendia ou precisava de ajuda. Ela também exigia que tudo fosse guardado nos seus lugares na hora estabelecida para a brincadeira terminar.
Na escola, a complexidade é muito maior:
· porque a primeira compromisso da escola é com o processo de aprendizagem do aluno;
· porque há um grande número de alunos e, ao institucionalizarmos o livre brincar também instituímos um certo artificialismo. Se não houver um professor ou um educador brinquedista disponível para organizar os lugares e o tempo- livre para as brincadeiras, negociar regras, sugerir novas brincadeiras, enfim, se não houver um adulto que aposte na importância deste brincar e mediar as necessidades dos alunos, este brincar não acontece.
Este brincar parece mais viável quando se pensa nas crianças, alunos da pré-escola. E depois, o aluno das primeiras séries, não precisa mais brincar livremente? Ele já desenvolveu sua imaginação, elaborou todas as suas questões de vida, suas questões com a aprendizagem, suas questões de convivência social com os outros alunos? E para frisarmos o tema desta palestra, este aluno do ensino fundamental já aprendeu a conviver com suas diferenças e conviver e interagir com outro aluno que é diferente?
Por que brincar e jogar livremente na escola?
O livre brincar no ensino fundamental:
· facilita e otimiza o processo de aprendizagem e
· a convivência social na escola.
Inicialmente precisamos compreender que ao lado das brincadeiras de faz-de-conta, das histórias e dos desenhos, pouco a pouco, os jogos de regras em grupo, podem atender:
· as necessidades de se expressar,
· elaborar sentimentos,
· aprender de um outro jeito,
· coordenar pontos de vista para se chegar num consenso,
· questionar para se aceitar a regra (diferença entre obedecer ou aceitar uma regra).
Estou me referindo tanto a aqueles que se joga ao ar livre, com um mínimo de materiais, como excelentes jogos de tabuleiro, que se pode jogar até mesmo na sala de aula.
É evidente que não vamos adotar jogos de regra em grupo para que os alunos aprendam a jogá-los. Dependendo de como é feita a mediação (do professor e/ou educador brinquedista) é que estes jogos serão recursos facilitadores não só da aprendizagem, mas, da elaboração das questões emocionais e do convívio social , possibilitando a inclusão do aluno que é diferente.
Quando penso na inclusão, penso em primeiro lugar no aluno do ensino regular que
· “está à perigo”. Aquele aluno que está fracassando, que ninguém mais “agüenta”, que é agressivo que perturba os outros, que está a um passo de ser excluído da escola.
· aluno que tem necessidades especiais decorrentes de uma deficiência física ou mental,
· e, em bem menor escala, o aluno com neurose grave ou psicose.
De qualquer maneira, todos alunos, mas em particular, os “diferentes” podem se beneficiar muito quando o brincar e jogar são contemplados na escola com o posicionamento que foi falado anteriormente.
A prática tem demonstrado que estes alunos conseguem ser incluídos quando alguém da escola “aposta” no sucesso deles. Este alguém pode ser o professor de turma, o educador brinquedista ou outro adulto de referencia para o aluno. E o brincar / jogar e outras atividades lúdicas podem ser um recurso otimizador em conjunto com todas as outras iniciativas de inclusão da escola.
Como viabilizar o livre brincar e jogar na escola?
Encontrar alternativas que resgatem o ser humano na sua totalidade, sensível e ético, capaz de transformar a sociedade em que vive, capaz de produzir conhecimentos com autonomia, espírito crítico e investigativo é a proposta que desafia não só os profissionais da educação, como também os profissionais da saúde e das ciências sociais.
A brinquedoteca da escola pode ser um grande aliado, um núcleo irradiador de humanidades. O educador brinquedista é o profissional que acrescentou à sua formação de profissional da educação uma formação específica para poder mediar, através de brincar/jogar e utilização de outros recursos lúdicos, as questões pertinentes ao desenvolvimento emocional, social , físico, e da aprendizagem do aluno.
A brinquedoteca da escola é um lugar preparado para suscitar e acolher o livre brincar, jogar, ou outra atividade criativa do aluno. Seu âmbito pode ser restringido ao tempo livre do aluno na escola ou, ser muito mais abrangente, quando estiver inserida no Projeto Político e Pedagógico da Escola.
A brinquedoteca da escola é diferente da sala de recursos, ou sala de jogos. Este acervo de materiais é utilizado com o fim claro de facilitar uma aprendizagem específica (ex: jogos pedagógicos).
A brinquedoteca como atividade extra-classe da escola acolhe e atende as necessidades de brincar do aluno ( aquilo que precisa elaborar), trabalha a integração, auto-estima, possibilidade de experimentar e de errar, possibilidade de criar. Auxilia na aprendizagem não formal de conteúdos (conceitos de matemática ou de linguagem, por ex.), propostos em jogos que nem lembram a ensino formal. Eventualmente promove a integração de pais e professores.
A brinquedoteca inserida Projeto Político e Pedagógico da escola (regular e especial):
- lugar privilegiado para se observar como aluno pensa e aprende, alem de possibilitar novas formas de compreensão desse aluno , pois ele diz de si e se revela ao brincar e jogar. Esta forma multifacetada de entender o aluno possibilita alternativas de intervenção de todos que atuam com ele. Ex: uma aluna, ao brincar de “faz de conta” enrola uma mantinha e brinca com ela “como se” fosse seu bebê. Embala “seu bebê”, emite sons ou palavras, revelando que este bebê tem um significado que é único para esta criança.. Este ”bebê”, hipoteticamente falando, pode ser ela mesma, pode ser um bebê que tem um significado particular para ela, tem um valor pessoal, único para essa criança (o que na psicanálise se chama de significante). De que bebê ela está falando? Provàvelmente não sabemos, mas se não interferirmos ela vai brincar de acordo com sua necessidade e se beneficiar muito com este brincar. Enfim, se percebe que ela está simbolizando. Mas pela expressão, ela revela que sabe que está usando uma manta para brincar que é um bebê. Já uma criança psicótica pode até se referir ao bebê, mas vai brincar com o bebê como um objeto concreto, ele não simboliza. A diferença é sutil, mas uma pessoa sensível, percebe esta diferença. Esta forma do aluno se revelar e que foi percebida pelo professor ou educador brinquedista pode gerar novas alternativas de se atuar com ele.
- lugar onde se suscita ou fortalece vínculos: dos alunos entre si; destes com a equipe da escola; alunos, pais e equipe da escola e da equipe entre si. O vínculo afetivo entre os educadores da escola, muitas vezes é suscitado ou fortalecido quando eles brincam ou jogam juntos. Uma equipe que consegue jogar junto, também descobre maneiras de trocar experiências e enfrentar as dificuldades. Por ex: Como um educador brinquedista lida com a situação quando um jogador esta “roubando” no jogo? E o professor, como lida com a questão quando percebe que um aluno está “colando na prova?” Será que alem da via disciplinar existe uma outra via para se lidar com esta questão? Será que ambos (professor e educador brinquedista) poderiam definir uma estratégia conjunta para que na vivência com jogos este aluno possa experienciar as conseqüências de não aceitar a regra? Será que este aluno só a prendeu a obedecer regras, sem questioná-las e aceita-las por entender que é o melhor para todos ?
- lugar que promove a interdisciplinaridade quando suas atividades são integradas com as propostas da escola gerando um leque de possibilidades de inclusão. Isso requer que o educador brinquedista seja incluído nas reuniões da escola onde se analisa as dificuldades dos alunos, podendo contribuir com sugestões;
- lugar para se trabalhar a auto-estima positiva, realçar competências, descobrir formas de se lidar com as diferenças. Ex: modificar a regra do jogo para possibilitar a inclusão, modificar o brinquedo para possibilitar o uso de alguém com uma deficiência etc. Estas intervenções, quando feitas de maneira adequada, dizem ao aluno que “podemos jogar juntos, apesar de nossas diferenças”. Geralmente são percebidas pelo aluno “diferente” como acolhimento. Isso gera, muitas vezes um sentimento de confiança em si e nos outros, fazendo com que ele mesmo aprenda como se incluir nos outros momentos do cotidiano escolar. Existem muitas estratégias para se incluir, desde as mais simples como se certificar que todos os jogadores tem o desempenho exigido, ou oferecer de “jogar junto” com o jogador que ainda não é capaz de uma ação. Neste caso, isso é feito de maneira natural, e o educador brinquedista estimula o jogador a jogar sozinho em tudo o que é possível, apenas o auxilia naquela ação que ainda não é possível. Outro exemplo de mediação: Jogo do Coelhinho Max. O que o mediador diz é muitas vezes produz o efeito.
Como viabilizar a brinquedoteca na escola inclusiva:
- um profissional da área da educação com formação de educador brinquedista em período integral, que planeja, orienta as atividades, acolhe a equipe da escola e capacita os colaboradores ( via de regra, estagiários voluntários).
- um local organizado para este fim, que suscite a vontade de brincar e jogar com “cantos” temáticos e lugares definidos para se guardar os materiais.
- outros locais da escola que, em certos horários, ficam disponibilizados para a brinquedoteca.
Assim como a biblioteca que não atinge suas finalidades sem a atuação de um bibliotecário, também a brinquedoteca só atinge este nível de otimização quando dirigida por pessoa qualificada para tal.