Texto retirado do site do  Grupo de Apoio a Escolarização Trapézio, de 21 de outubro de 2001

A entrevista com Maria Cristina Kupfer aprofunda a discussão a respeito das contribuições que a Psicanálise pode oferecer para os trabalhos realizados na interface com a Educação. Segundo a autora, a Psicanálise pode contribuir na ampliação do conceito de Educação, desfazendo a colagem da Educação à Pedagogia.

A compreensão da prática educativa como formadora da subjetividade e como elemento crucial na transmissão da Cultura aponta para a necessidade de se aprofundar tanto o conhecimento tácito quanto teórico das intervenções realizadas em escolas, seja por professores, seja por trabalhos de apoio à escolarização, como o do Trapézio.

Entendendo o fracasso escolar como um sintoma da modernidade, uma denúncia da falência da escola, a qual não serve mais aos interesses de formação, Cristina Kupfer discute as dificuldades geradas pela intensa imaginarização do mundo, que levou à perda da dimensão simbólica do conhecimento.

Explica também como intervenções no discurso escolar podem ter uma grande incidência no social à medida que descristalizam posições e quebram estereotipias, gerando novo movimento nas construções discursivas do cotidiano escolar.

Cristina Kupfer retoma, também, a noção de estilo cognitivo, apontando para a necessidade de que dispositivos sejam criados dentro das escolas para permitir que os estilos se gestem.

TRAPÉZIO – Em seu livro “Educação para o Futuro. Psicanálise e Educação”, a Sra. Afirma que a Educação pode receber da Psicanálise uma contribuição muito mais profunda e transformadora do que se imaginava há uma década atrás. Como se dá este encontro e quais os seus frutos?

Cristina Kupfer:  A primeira contribuição é algo que diz respeito aos movimentos das idéias, muito mais do que às práticas escolares: a Psicanálise pode ajudar a ampliar o conceito de Educação, desfazendo a colagem da Educação à Pedagogia, e também observar o quanto às práticas educativas, que são tidas como aparentemente tão simples ou superficiais, são, na verdade, formadoras de uma subjetividade, de uma personalidade.

A Educação pensada como essa prática realizada por todo adulto sobre uma criança, no sentido de fazer a transmissão de uma Cultura, pode ser meio perigosa porque os pais acabam ficando excessivamente preocupados, com medo de estarem fazendo as coisas erradas, traumatizando e marcando seus filhos com coisas que eles nem sabem o que são. Isso foi um efeito da psicologização sobre nosso mundo não muito bom, mas de qualquer maneira para compreender o que se passa nas relações entre os adultos e as crianças e bebês, a Psicanálise trouxe luzes e mostrou que os pais, fazendo coisas aparentemente sem importância, produzem efeitos estruturantes, organizadores da subjetividade e da personalidade.

Transportando isso para a escola, também percebemos duas facetas: alguns professores podem até ficar inibidos ou preocupados com o que estão fazendo, mas por outro lado, apontar a importância de sua tarefa, a qual transcende e supera a mera transmissão de conteúdos pedagógicos, formando não só uma posição no mundo, mas também a subjetividade, e contribuindo para formação de um estilo, que pode ser decisivo para o destino subjetivo dessa criança, me parece muito inovador.

A Psicanálise traz essa visão que “balança” os professores e aponta coisas dessa natureza. Introduz uma visão para o educador tão completamente diferente do seu papel, do seu lugar, da sua relação com o objeto de conhecimento, que produz uma virada, a qual tem, certamente, efeitos. Nesse sentido, eu acho que há na Educação essa função formadora e profunda.

TRAPÉZIO – Como se transmite isso para o educador? Você acha que um curso ou grupos de conversa têm essa potencialidade?

Cristina Kupfer: A Psicanálise tem um alcance grande, mas não é um alcance do tamanho de pilotar uma enorme reforma do ensino em nível nacional. É um efeito transformador e grande em cada um que ali se posicione de uma forma tal que ele possa ouvir e se reposicionar. Então, depende muito daquilo que chamamos de consentimento de cada um: a idéia do consentimento do sujeito. Isso vale para os professores e para os alunos. Esse é um limite.

Um curso pode produzir transferência com a Psicanálise, faz os educadores pensarem, mas não chega a alterar posições subjetivas. A Psicanálise pode avançar um pouco mais se houver um dispositivo no interior da escola. É preciso sempre que haja alguém na posição de borda escutando os professores, porque os professores sozinhos não podem se escutar na relação deles com seus alunos. Mas ao serem escutados por alguém que está à distância, percebemos efeitos de mudança interessantes. O que se verifica é que a escola se transforma se você tem um acompanhamento sistemático. Uma ação para grupo de professores é uma intervenção institucional. Ela não é uma intervenção analítica sobre cada sujeito-professor, mas uma ação sobre o discurso que se instalou na escola e que produz estereotipias, paralisias, nós. Os professores, muitas vezes, não podem ou não conseguem sozinhos se livrar desses nós.

TRAPÉZIO – Para ocupar esse lugar a pessoa precisa necessariamente estar fora, quer dizer, não pode ser um funcionário da escola?

Cristina Kupfer: Acreditamos que seja importante que este profissional esteja fora. No serviço de psicologia escolar da USP, por exemplo, que trabalha nessa mesma direção, os professores vão à USP. Nesse deslocamento já se está produzindo um interesse, uma movimentação, um sair do seu lugar, ir em busca. Isso já mostra uma outra posição do professor. É diferente a escola ter um profissional contratado que tem de estar com os professores de forma obrigatória. O movimento que vem dos professores é muito mais interessante, porque traz perguntas, movimentos, e produz deslocamentos.

TRAPÉZIO – Quais são os equívocos do encontro da psicanálise com a educação?

Cristina Kupfer: Tanto da psicanálise, como de toda a divulgação de tudo que é psi. O efeito de falar do poder que os professores têm sobre as crianças pode ser ouvido tanto para o bem como para o mal. Para o bem porque abre horizontes. Para o mal porque pode provocar uma retirada desse professor que teme traumatizar o aluno, produzir marcas, fazer coisas equivocadas, produzir inibições do lado de seus alunos mais do que produzir movimentos. Isso pode gerar uma espécie de desqualificação, desvalorização e desautorização do professor. Por isso é que esse trabalho de ida aos professores tem de ser um trabalho sistemático e freqüente. Não pode ser só um curso.

Você tem de estar presente. Essas posições têm de ser revistas até que isso possa realmente ser desmanchado como um temor. Uma pessoa não controla esses efeitos, mas ela vai pelo menos poder abrir espaços de fala para que os professores não se paralisem numa única compreensão, numa única leitura do que a psicanálise ou a psicologia teria transmitido pra eles. Yara Sayão (técnica do Serviço de Psicologia Escolar da USP) estava me falando de um texto do Drummond tão bonito: ele falava do dia em que ele nasceu como escritor, e, claro, foi na escola. A professora pede para ele escrever alguma coisa e ele não sabe o que fazer. Ele se põe a escrever e os alunos gozam dele. Ele entrega o texto para professora, que diz: “continue escrevendo, Carlos, porque assim você poderá vir a ser um grande escritor”. Ele diz que ali ele nasceu; é o momento de nascimento dele como escritor. Então, digamos que o professor pode ter esse tipo de efeito mesmo sobre os alunos. No fundo, a psicanálise põe luz sobre coisas que sempre aconteceram, devem continuar acontecendo nas escolas e que hoje estão perdidas. Não se trata nem tanto de inovar. O psicanalista não ensina o professor a ser mais do que já foram sempre os bons professores. Mas, na medida em que percebemos uma falência no ensino, com a desvalorização da figura do professor, e a rede de ensino que sustenta as escolas aos pedaços, sem referências, essas boas práticas que os professores tinham intuitivamente estão se perdendo. Então, essa leitura ajuda a recolocá-los em movimento, em prática. Não é ensinar uma nova prática, mas mostrar o que é transmitir, num sentido bem amplo.

TRAPÉZIO – Quando a Sra diz que os efeitos do encontro com a psicanálise dependem do consentimento de cada um , ou seja, que ele se dá com um sujeito, e não com o coletivo, significa dizer que não é possível se pensar em um alcance social da psicanálise?

Cristina Kupfer: Depende de como entendemos as formulações da psicanálise. Temos que partir do pressuposto de que a psicanálise estará sempre tentando dar conta da articulação do sujeito com o discurso. É neste ponto de encontro que ela trabalha. Então, quando um psicanalista vai a uma escola e trabalha com os professores, a incidência de seu trabalho se dá sobre os discursos que estão ali se movimentando: uma intervenção pode descristalizar, pode quebrar estereotipias, pode provocar giros nos discursos. Isso já tem um efeito institucional e podemos considerar como uma incidência sobre o social.

Agora, os sujeitos, que são os agentes desse discurso, estão ali também. Deste modo, quando algo se transforma no plano do discurso institucional, ocorrem efeitos sobre cada um; mas, para que haja essa mudança, estamos na dependência do consentimento do sujeito.

A primeira entrada é social. É nessa hora que se faz uma diferença entre práticas da psicologia institucional, práticas de grupo de um modo geral e a psicanálise: as práticas de grupo estão com o olhar posto sobre este conjunto, sobre esse discurso, sobre esse social. Já a Psicanálise ajuda a ver a articulação com o sujeito, com o singular. Isso se perde um pouco quando só ouvimos o discurso social. Temos que levar em conta o sujeito, mesmo que muitas vezes não possamos capturar esses efeitos ali, mas sabemos deles “no depois”. Podemos perceber que um professor sai da posição que ele estava, que ele muda sua relação com os alunos. Então, sabemos que não só houve efeito na estruturação da escola, como sobre cada professor. Yara Sayão estava contando hoje: os efeitos que os técnicos do serviço do PSA percebem é uma espécie de democratização na escola: há um efeito sobre a organização institucional, os alunos começam a ser ouvidos, a instituição por inteiro se reorganiza. Mas sabemos que têm os efeitos sobre cada um, porque se não houver efeitos subjetivos individuais, é difícil que o todo da escola se reorganize. É algo que tem de ser sempre olhado por esses dois ângulos. A Psicanálise não é só um discurso sobre o singular, mas não é também só um discurso sobre o social. Ela põe o seu olhar na articulação entre os dois: isso é o que é rico na Psicanálise.

TRAPÉZIO – Gostaríamos que a Sra comentasse a idéia de fracasso escolar como sintoma social e de como as intervenções, sejam elas clínicas ou pedagógicas, podem vir a produzir efeitos neste campo mais amplo, que é o social.

Cristina Kupfer: A escola é um microcosmo, uma pequena instituição, na qual a Psicanálise incide. Mas a Psicanálise não tem uma incidência sobre o ensino, sobre a Educação que está sendo proposta no país. No campo social, ela tem uma interferência no movimento das idéias e isso acaba incidindo sobre cada escola. Ela pode trabalhar mais sobre o particular de cada escola, que já é uma pequena instituição social.

Em relação ao fracasso escolar como sintoma social, é uma leitura possível: o fracasso escolar como sintoma da modernidade, como uma denúncia da falência da escola, como uma espécie de grito generalizado, já que é um sintoma globalizado e não é privilégio nosso. É uma denúncia de quanto a escola não serve mais aos interesses de formação, de transmissão da Cultura, aos interesses tanto imaginários como simbólicos dos alunos. Têm muitos interesses que são imaginários, como por exemplo, alunos querendo que a escola fique mais “up to date”, mais moderna em relação aos seus interesses, que eles fiquem na frente do computador jogando joguinho. Mas não se trata só disso. Sabemos que tem mesmo uma defasagem em relação ao que a escola pensa que seria necessário transmitir e o que ela está efetivamente transmitindo. O fracasso acaba sendo um sintoma na medida em que ele é uma formação discursiva inconsciente, que desloca, esconde e recalca, mas que por outro lado, revela. Revela isso: as falências das estruturas escolares.

TRAPÉZIO – Sabe, nessa semana nós estávamos conversando com a diretora de uma escola com a qual temos uma parceria, uma escola municipal, e ela nos falou de uma escola na periferia de São Paulo da qual a diretora “desistiu”. Ela não tinha como fechar a escola, porque ela não tinha essa autoridade, mas ela começou a sugerir para os pais rematricularem seus filhos em outras escolas. E a diretora com a qual conversávamos estava na situação de ter de receber, no meio do semestre, alunos vindos dessa outra escola que estava fechando informalmente, não oficialmente, porque tinha sido tomada pela marginalidade, pelo tráfico de drogas. A pergunta que ela se fazia era: por que bandido vai bater justamente na escola, que é um lugar que não tem nada para oferecer em troca. O que acontece que essa instituição ficou como alvo? Justamente a escola que é a única instituição hoje pensada para a criança. Algo acontece aí que a escola ficou realmente muito vulnerável e a criança também.

Cristina Kupfer: Eu presto mais atenção nessa sensação de impotência dessa diretora. A Psicanálise ajuda a ler as ações dela. Ou seja, trabalhar com os professores, com a direção, para possibilitar um resgate. Essa impotência da diretora é filha direta de como nosso mundo está organizado. Primeiro tem a falência da autoridade do professor, devido à posição em que ele se encontra, devido à desvalorização de seu trabalho, à falta de apoio, aos discursos sociais, por causa da imaginarização do mundo, através da qual os objetos têm mais valor do que a ética humana, no qual o dinheiro impera, em que um professor não vale nada porque ganha pouco. Isso que seria a imaginarização ou a narcização do mundo é o que tira do professor sua autoridade simbólica¹.

Como essa narcisação produz a impotência? Ela substitui a antiga castração simbólica do professor pela castração imaginária. Substitui o que era da ordem da impossibilidade, pela sensação de impotência. A metáfora que eu uso é: os alunos estão acusando os professores (ou a sociedade como um todo) porque eles são castrados imaginariamente, ou seja, a pobreza do professor é uma ofensa, uma afronta. Faltam atributos imaginários ao professor, como “roupas bonitas”, “carros novos”, etc. Esse é um raciocínio extremamente narcísico, quer dizer, agarrado aos traços, às imagens, aos objetos.

Quando o professor puder resgatar o seu lugar, ele terá de responder para o seu aluno: “você pensa que estou com as vestes rasgadas, engano seu, eu estou é nu. Sim, alguma coisa me falta mesmo. Eu sou um não-todo, eu não posso tudo, mas isso por causa da minha condição de faltante, de castrado, de quem tem de se submeter a lei, mas não porque eu não tenho dinheiro. E essa castração que me atinge, atinge a você também.”

TRAPÉZIO – E essa seria a maneira de fugir dessa relação narcísica. Porque o que acontece é que o professor acaba caindo nisso …

Cristina Kupfer: Se o professor ou o diretor respondem no mesmo plano das relações narcísicas, do mundo imaginário, se o educador acredita nesse lugar que o colocam, ele poderá ou se sentir impotente e deprimido, ou se rebelar. Não uma rebeldia revolucionária de 1968, mas uma rebeldia de reclamação.

TRAPÉZIO – A diretora da qual falávamos também comentou sobre a aparente contradição entre a enorme identificação que há hoje entre professor e aluno e a enorme barreira que se estabelece entre eles no momento do ensino…

Cristina Kupfer: Falta hierarquização. Isso também é próprio do mundo narcísico: é o semelhante com o semelhante, é o igual com o igual. Narciso quando se olha no espelho e ali se vê, sente raiva. Ficar contemplando o semelhante produz agressivização. Para um professor se destacar, ele teria de estar numa outra posição, que seria o de representante de uma tradição. Ele não pode falar em nome próprio, porque ele vai se confundir, ele vai ver que ele é igual, que usa a mesma roupa, que assiste os mesmos programas de televisão.

Como é que ele vai poder deixar de falar em nome próprio? Quando ele não é mais o “Seu João”, mas o representante de uma transmissão de uma cultura que tem muitos anos. Isso o professor antigo podia fazer mais, porque ele estava sustentado por essa rede simbólica geral e social presente em todas as escolas. Então, ele falava uma coisa que um outro professor de um outro canto do Brasil também falava. Todos ligados por essa rede simbólica. Ele representava esses valores. Ele era o arauto dos livros, e mais, ele era testemunha do modo como os humanos se relacionavam com esta tradição. Mais do que dar informações, ele testemunhava a sua relação de desejo com esse objeto. Testemunhava sem saber: quando se punha a falar, estava falando da relação de desejo.

Isso se perdeu: a dimensão simbólica da transmissão do conhecimento. Por isso a sensação de impotência, por isso tem muita semelhança, por isso a hierarquia se quebra. Isso é um efeito, não uma conseqüência. Não se trata de ter havido um questionamento da hierarquia e por isso o professor perdeu o seu lugar. Ele perdeu o seu lugar e, então, a hierarquia deixa de fazer sentido. Os alunos atacam porque a hierarquia não serve para nada. Mas não são eles que estão acabando com a hierarquia. Ela acabou como conseqüência da perda do lugar do professor.
Realmente não faz mais sentido que ele se ponha acima de um estrado. Ele continua sendo semelhante, o “Seu João”, e não um representante de um objeto da Cultura, de um pedaço do conhecimento, ele continua sozinho; o Ensino, a Educação continuam desvalorizados na mídia, na televisão, em todo lugar. Essa rede, que antes unia a todos, não existe mais. Isso significa que as transformações na escola, na instituição escolar, vão ter de ser muito profundas. Nenhuma reforma ministerial daria conta da reforma que precisaria ser feita para resgatar ou para recolocar a instituição escolar em outro plano.

TRAPÉZIO – As propostas governamentais para Educação, atualmente, visam a melhoria dos índices de repetência e de alfabetização…

Cristina Kupfer: Toda vez que eu falo disso, eu lembro do “Invenção da Psicanálise”, de um discurso que o Freud que falava da guerra, e a Anna Freud leu, em 1937/38, numa das aberturas da Sociedade de Psicanálise: quando uma sociedade se desmorona por inteiro, quando tudo quebra, quando tudo se desfaz, quando todos os edifícios caem por terra, devido a uma guerra ou a um grande cataclisma, a reconstrução sempre se faz em torno de uma escola. A primeira reconstrução é a da escola. E por que só é possível recomeçar quando uma escola se faz? Porque é a única maneira de resgatar o perdido da tradição e o que permitirá dizer para aqueles que virão o que veio antes. É o que faz a ligação, o que retoma a velha pergunta: de onde viemos e para onde vamos?

E a nossa escola não faz mais isso. Ela precisa dos índices. Ela acha que o importante é educar para o trânsito.

TRAPÉZIO – Hoje em dia se você tem um aluno saindo da oitava série sabendo ler e escrever já é lucro!…

Cristina Kupfer: Nem ler e escrever a escola não está mais dando conta de ensinar… Será que eles se perguntam por que estão ensinando a ler e escrever? Para que serve isso? Porque esse saber eles têm. Não sabem que têm, mas têm, porque fazem parte dessa sociedade, dessa cultura. Eles foram mergulhados nisso tudo. Podem não ter lido os livros, mas sofrem seus efeitos. Mesmo sendo uma cultura globalizada, imaginarizada, objetalizada, consumidora, um saber sobre a transmissão eles têm. E como é que se resgata isso? Falando, retomando, relembrando.

TRAPÉZIO – Muitos educadores se queixam, hoje, do sistema de ensino continuado que não reprova o aluno e que acaba fazendo com que cheguem alunos na oitava série sem estarem alfabetizadas, ou com muitos buracos. O que será que acontece que é justamente na escrita que se dá essa incidência?

Cristina Kupfer: Podemos pensar que essa história da reprovação é fruto dessa desqualificação e da impotência do professor. Ele perdeu um instrumento super importante: o poder de avaliar. As normas, as regras deveriam ficar na mão do professor. Ele perdeu isso. Hoje mesmo eu estava ouvindo uma história de uma mãe que disse para um professor: “Olha aqui, você não deixe o meu filho passar porque eu não sou tonta. Eu estou vendo que ele não está preparado para passar”. A mãe precisou vir acionar um mecanismo que os professores não podem mais acionar sozinhos. Era um dos últimos instrumentos que eles tinham de controle. Mas isso é fruto dessa impotentização, desse lugar imaginário. A nota não é um instrumento que ele aciona enquanto representante da lei; passa a ser um exercício arbitrário, portanto pessoal, portanto imaginário, portanto os alunos respondem a isso dizendo “não, o sr está me reprovando porque o sr não gosta de mim, porque o sr é bravo, porque o sr é autoritário. Então, eu recuso a sua reprovação.” Agora por que incide sobre a escrita? É uma pergunta bem interessante, eu não tinha pensado nessa relação …

Se eles não aprendem, ou aprendem muito mal (que é o que acontece), eles chegam na oitava série sem ter uma noção vaga que seja do que é a Língua, do que ela é como instrumento de fala, de denúncia, de posicionamento, de interferência, de uso social. Se isso se perdeu é porque ela não foi transmitida enquanto tal. Ela foi transmitida como pura técnica, esvaziada de sentido. Não é uma coisa que a professora vai ensinar falando: “saibam que a escrita é um instrumento muito importante da cultura porque ela é a forma como o sujeito se manifesta, com seu estilo, como instrumento de laço social”. Mas o modo como ela ensina, os livros que ela apresenta, as leituras, tudo o que se pode falar sobre a história da escrita na história da humanidade não foi falado. Transforma-se em uma coisa puramente técnica, portanto sem sentido. Não há razão para aprender. E mais: tem gente dizendo para esses mesmos garotos que eles não precisam disso. Basta eles lerem o mínimo, porque no mundo dos objetos, do consumo e do enriquecimento você não precisa saber nada disso. Para ser um comerciante bem sucedido, um empresário bem sucedido, você não precisa saber ler, nem escrever. Basta ser esperto. Não há por que aprender. E por que esses professores perderam o sentido da escrita? A escrita como lugar não só de produção de laço social, como também de um instrumento para um sujeito se fazer dizer. Ele não precisa ser nem poeta, nem escritor…

TRAPÉZIO – Na escola de uma das crianças que atendemos não tem livros…

Cristina Kupfer: O lugar do livro se perdeu. Acho que a escrita é uma possibilidade do sujeito se dizer, mas também na leitura isso acontece. O que eles precisariam experimentar? A escrita é a possibilidade de se vir a dizer mais do que se dá conta de dizer. Na leitura há uma abertura de certas experiências, que de outra forma não seriam possíveis. É uma comunicação de experiências, é enriquecimento. Eu vou contar uma experiência que eu me lembro de ter vivido. Eu estava lendo “Em busca do tempo perdido” e tem um trecho que ele começa a falar das madeleines, que ele traz a recordação de infância dele. Ele olha para o fundo da xícara e aquilo começa a se desdobrar. É um texto, uma descrição, uma experiência. Tudo que ele desdobra a partir dessa coisinha é absolutamente maravilhoso. Eu fiquei completamente maravilhada, tomada. E eu não sabia que esse era um dos trechos mais importantes da literatura. Ele é clássico, todo mundo se refere a esse trecho como sendo clássico. Eu tive uma experiência muito forte de iluminação, de ver as possibilidades da mente humana, da experiência humana com a memória, que foi muito lindo. Então, eu aprendi alguma coisa com isso. Se um professor me desse isso para ler e depois falássemos disso… O aluno tem que ler a grande literatura porque isso produz efeitos de maravilhamento. São experiências subjetivas fortíssimas e que podem ser muito mais intensas do que fumar um cigarro de maconha. São experiências mediadas pelo simbólico, muito mais duradouras. Diferente do fugaz e do esfumaçado que seria a droga.

TRAPÉZIO – Muito tem se discutido acerca do tema “indisciplina”. Temos a impressão de que se trata de um falso tema, que encobre dificuldades e falhas da própria instituição escolar em lidar com as diferenças em sala de aula. A noção de “estilo cognitivo” postulada em seu último livro, ao nosso ver, trouxe uma contribuição valiosa para que esta questão se re-situe. A Sra concorda? O que a Sra pensa a esse respeito?

Cristina Kupfer: Eu concordo com vocês de que a indisciplina é um falso tema porque encobre dificuldades da própria instituição escolar. Eu só acrescentaria o seguinte, que é algo que a Maria Helena Souza Patto estava me dizendo. Estávamos comentando o quanto é difícil falar para professoras que elas têm uma parte de responsabilidade nesse tema, enquanto instituição escolar. Falar que a indisciplina é uma criação, efeito das relações institucionais escolares produz nos professores sempre era muito negativa: “Imagina, eu não tenho nada a ver com isso. Eles é que são mal-educados, ou a sociedade.” Mas ela (Patto) tem sanado essas coisas lembrando que os professores também estão capturados. Eles também são vítimas disso e não são só aqueles que sustentam e são responsáveis pelos problemas e dificuldades da instituição. São pessoas que também sofrem, que são vítimas da cristalização institucional. Eles também precisam ser ouvidos, temos que colocá-los ao lado dos alunos nessa vitimização, pensando que nós não podemos só acusá-los de serem produtores de indisciplina. Eles também sofrem os efeitos disso, e, nesse sentido, eles têm razão de ficarem bravos.
Em relação à noção de estilo cognitivo, ela é interessante, mas eu vejo também do lado dos professores uma dificuldade em ouvir e absorver. Na prática não é tão complicado assim, mas teoricamente, exige uma consideração muito singular de cada um. É o efeito do encontro de três elementos: a transmissão do objeto de conhecimento mesmo, o desejo do professor ali colocado, e as marcas de desejo do próprio aluno. Essas três coisas juntas dão origem a uma formulação nova, um modo muito próprio de apreender esse objeto. Como efeito disso nós teríamos esse estilo cognitivo, que sai da uniformização, que permite um olhar (capturado pelo sintoma social, pelo discurso dominante) para o singular, para um modo próprio de aprender. Seria necessário voltar-se para esse modo próprio, levar em consideração e alimentar a maneira desse estilo. E aí os professores poderiam dizer: “mas isso é muito trabalhoso! Como é que eu vou saber de cada um, como é que eu vou poder alimentar cada um?”. Teoricamente é problemático, poderia dificultar, m podemos olhar de outro ângulo: essa montagem do estilo é uma coisa que é feita dentro do chamado foro íntimo de cada aluno, que o professor não tem controle. Ele não tem que ficar lendo cada estilo e se adaptar a cada estilo, mas o que ele teria de fazer é construir condições de ensino que permitam a gestação de cada estilo. Essas condições elas são pra todos, mas elas são colocadas de forma tal que cada um poderá se apropriar como puder, como quiser, a partir de suas próprias marcas de desejo. É necessário que a estrutura possua essa flexibilidade, mas que haja regras para todos, porque também se não houver regras não vai haver produção de estilo algum, vai ser delírio. Temos uma direção do ensino, parafraseando a psicanálise, mas o professor não dirige o sujeito. É preciso que existam dispositivos para que estes estilos se gestem, se pratiquem, se organizem e isso uma escola pode fazer.

TRAPÉZIO – A inclusão escolar de crianças com distúrbios de desenvolvimento pode ser bem conduzida na prática? Quais os cuidados a serem tomados para garantir que essas crianças encontrem, de fato, uma escola na escola?

Cristina Kupfer: A maior dificuldade é que a escola inclusiva não é para todos (quando eu digo isso eu recebo um monte de pedradas). Eu sei que é perigoso, porque abre margem às exceções, cria-se uma brecha pra acabar colocando todo mundo para fora. Mas “todos têm que entrar” também não é possível. São poucas as crianças que ainda não podem ir pra escola, por isso é que a gente as prepara para tanto. Algumas são as condições para inclusão: preparação psíquica; que o tratamento continue após o ingresso na escola; criar espaços de fala e escuta para os professores; que a escola se transforme de uma maneira geral para receber todo tipo de alunos.

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