Archive for the ‘Artigos’ Category
Por Célio Luiz Pinheiro
A vida é uma passagem, passagem de uma idade a outra, de um status a outro, de uma ocupação a outra. A função das cerimônias é facilitar, simbolizar e marcar essas passagens, sejam elas nascimentos, infância, adolescência, noivado, casamento, gravidez, paternidade, iniciação religiosa, formaturas, funerais e outras tantas manifestações propriamente humanas.
“Os rituais revelam os valores no seu nível mais profundo… os homens expressam no ritual aquilo que os toca mais intensamente e, sendo a forma de expressão convencional e obrigatória, os valores do grupo é que são revelados. Vejo nos estudo dos rituais a chave para compreender-se a constituição essencial das sociedades humanas”.2 (Turner, 1974, p.19)
Quão simbólicos são os rituais na atualidade? E aqui, entenda- se por simbólico aquela dimensão primeiramente referenciada ao Outro, constituinte do sujeito, no justo sentido proposto por Lacan:
“O significante produzindo-se no campo do Outro faz surgir o sujeito de sua significação. Mas ele só funciona como significante reduzindo o sujeito em instância a não ser mais do que um significante, petrificando-o pelo mesmo movimento com que o chama a funcionar, a falar, como sujeito.”3 (Lacan, 1979, p. 197)
Os rituais, hoje, têm valor e eficácia de referenciar sujeitos?
Por Marcia Regina Motta
A experiência institucional com usuários de drogas suscita uma série de questões, que conduzem a múltiplas respostas na tentativa de dar conta da especificidade dessa manifestação, que para Freud no texto “Mal Estar na Civilização” (1930) se constitui como uma saída: “na impossibilidade da fuga na doença nervosa o sujeito escolhe a droga como uma solução para o seu mal estar” e complementa ”quando o sujeito não pode encontrar um sintoma satisfatório para ele passa a escolher a via da consolação pela intoxicação crônica”.
Pode se pensar ainda que a toxicomania viria a se constituir como uma das respostas ao discurso dominante de consumo, vigente na busca de gozo. Onde o que se tem é um gozo que encontra na droga uma via de satisfação. Apresentando o gozo imediato, intenso e sem limites, produzindo uma lógica da exclusão (MELMAN, 1992).
Muitas vezes o adulto ouve na fala/escrita da criança algo que não está bem, um sintoma (falar errado, não falar, trocar letras, trocar palavras…) que se desassemelha do “normal”. Na tentativa de entendimento do “erro”, uma medida estatística é implementada – correlacionam-se aquisições esperadas as faixas etárias. Mas isso só esclarece/aponta que a fala da criança está fora do tempo. Alguns erros são toleráveis, outros não. Parece que, nesse sentido, a escuta da fala de um outro é que determina o status da fala (uma escuta que discerne entre erros, para relevá-los ou não).
Se a “faixa etária” que acaba decidindo pelo que não deveria estar mais ocorrendo é porque a fala está em desacordo com o “corpo que fala”, que repete, que não passa para outra coisa (Allouch, 1994).
É certo que o organismo cresce, mas é certo que a idade que se mede, não corresponde ao “tempo do sujeito”, do corpo que fala.
Propomos uma reflexão que leve em conta a articulação singular fala-falante, que parece afetar a escuta – indissociação entre um corpo que fala uma fala e uma fala que fala (d)esse corpo. Repensar a noção de sujeito, linguagem e outro para que se possam oferecer recursos no entendimento das questões relacionadas à aquisição da fala e escrita das crianças.
Por Andressa Mattos
A realização de uma educação inclusiva no contexto atual não é tarefa fácil. A inclusão escolar é um campo que se encontra marcado por imperativos que precisam ser analisados a partir de vários eixos. Um deles refere-se à própria relação que se funda entre a escola e a demanda de inclusão que opera desde o social. Não menos desprovida de dificuldades é a tarefa de um Estado que intenta organizar uma política pública, no empenho de garantia do acesso a todos os seus cidadãos àquilo que lhes cabe por direito.
A educação inclusiva fundamenta-se na concepção de diferenças, algo da ordem da singularidade dos sujeitos, supõe que as diferenças sejam parte de seus estatutos. Como não torná-la, a cada passo, um novo instrumento de classificação, seleção, reduzindo os sujeitos a marcas mais ou menos identitárias de uma síndrome, deficiência ou doença mental?
Pensar as necessidades educacionais de uma criança envolve considerá-la desde um lugar estrutural, que não se restringe ao campo das deficiências, ou dos sintomas que venha a apresentar. Se a criança for vista pelo professor, primordialmente, como sendo alguém que é portadora de desejos, de uma história, os caminhos para a aprendizagem estarão incluindo o que é fundante no ser humano: a palavra.
Não se trata apenas de anunciar a ordem “escola para todos”, mas sim que estes “todos” possam ser registrados em sua singularidade, enquanto sujeitos. As vias que cada um vai colocar em jogo para atravessar o campo da aprendizagem serão marcadas por traços subjetivos. Diante de um mesmo trabalho a ser realizado, todas as crianças colocam em jogo o que há de mais singular em sua constituição: seu desejo, remetido ao desejo do Outro.
Frente a este desafio, como pensar o trabalho do professor tendo em vista a singularidade dos sujeitos? É neste sentido que as contribuições da Psicanálise na interlocução com a Educação entram em jogo. Alguns aspectos destas contribuições serão considerados na aula: O trabalho do professor e o olhar para a singularidade.
Por Maria Augusta de Mendonça Guimarães
Eu decidi falar sobre esse tema a partir da minha experiência em uma instituição que faz atendimento a crianças e adolescentes e conta com uma equipe interdisciplinar: psicanalistas, fonoaudiólogos, T.O.’s, musicoterapeutas, fisioterapeuta, pedagogos e educadores. Tal experiência me mobiliza a questionar por quais vias devemos direcionar este trabalho. Hoje em dia, após as discussões sobre reforma psiquiátrica, o advento dos CAPS’s e de novas ações no campo da saúde mental, é comum nos depararmos com práticas nas quais há vários profissionais envolvidos, ou seja, diferentes especialidades. O que eu gostaria de trazer, então, são algumas reflexões que fui desenvolvendo a partir deste trabalho interdisciplinar, pensando particularmente na clínica da adolescência.
Confira a versão completa.
Por Maria Aparecida de Luna Pedrosa
A SERPIÁ, como instituição, é reconhecida na comunidade pelo trabalho que realiza, marcado pela discursividade psicanalítica. “A SERPIÁ realiza sua missão voltada à prevenção e o restabelecimento da saúde mental de crianças e adolescentes” e amplia, neste sentido, seu investimento de trabalho atendendo às famílias. Somado a isso se preocupa, desde o início de suas atividades, em dispensar atenção à Educação.
Realiza suas atividades em torno daquilo que é reconhecido como efeitos, resultados de relações com as realidades experimentadas pelos indivíduos. Sejam da ordem que forem, essas realidades são experiências nos laços nem sempre vividas com satisfação, daí o adoecimento. A SERPIÁ trabalha com o adoecimento e sua prevenção de modo bastante apurado e responsável, inclusive no campo da Educação, desenvolvendo projetos de inclusão em parceria com a Universidade Federal do Paraná e a Fundação de Ação Social.
Como se pensa em definir a educação?
Sabemos que a Educação teve sempre por objetivo formar os indivíduos, este é um dado e fato historicamente reportados como ideal advindo desde a cultura grega. Cito Andréa Brunetto, que em seu livro Psicanálise e Educação, compara o mestre educador com o oleiro, aquele que modelava a argila. A educação teve esse papel na história, lembrando ao humano de sua submissão às leis e regras e de que só obedecendo de modo incontinente ao mestre ele poderia conhecer, se desenvolver, produzir técnicas e se aperfeiçoar.
A Educação teve como tarefa, historicamente traçada, cuidar da formação do homem, de modo a preservar os valores da Cultura e a prover a sociedade de cidadãos dignos – esse é um ideal da sociedade grega -.
Inegável o desejo de buscar a formação, mas por qual método?
A Educação na contemporaneidade tem buscado ampliar e alterar suas práticas e seus métodos para atender aos indivíduos que não correspondem aos ideais da Sociedade e da Cultura. Vem buscando modelos, ferramentas conceituais para oferecer o atendimento, especialmente àqueles que apresentam algum grau de comprometimento em sua organização psíquica ou orgânica e corporal.
Vem de algumas décadas as reflexões sobre os modelos de ensino destinados aos indivíduos considerados “especiais”, porém é recente a preocupação em atendê-los ao lado dos indivíduos considerados, diferentemente, capazes – logo “não especiais”-.
O educador, antes formado para atender aos capazes, é hoje tomado pela demanda política e ética de atender em conjunto os indivíduos “especiais” e capazes – ou não especiais -. Ora, que tempos! A ciência, no campo da Educação, qualifica os indivíduos de modo a que as diferenças se mantenham, porém devendo desfazer a diferença.
O campo da formação dos educadores os dotou e formou sob um pensamento ainda determinado por princípios focados no Ideal Grego. Parece então estar este campo pouco ou insuficientemente preparado para o necessário enfrentamento com o diferente, a não ser para tratar o diferente na diferença e tomando esta diferença como especialidade. É por isto que nos deparamos com os tratamentos concebidos como especiais, pois ainda convive-se com a qualificação do sujeito em sofrimento, o aluno especial – onde inclusive ainda lê-se aluno (aquele que não brilha, não tem luz) e especial (o diferente)-.
O sujeito qualificado como capaz não é especial? Por quê?
O que a Psicanálise pode então começar a ensinar aos educadores?
Penso que pode contar que os humanos – o gênero humano – poderia ser definido, em princípio, como especial, se seguirmos a lógica que a ciência propõe para pensar aquele sujeito com sofrimento por algum comprometimento físico ou mental. Ora, foi um psicanalista bastante conhecedor da ciência médica e do sofrimento com as deficiências em crianças, o senhor Sigmund Freud, que cometeu a maior subversão ao anunciar que o humano está desde sempre marcado pela experiência de não poder tudo, não poder encontrar “toda” a satisfação que poderia esperar e nem atender a tudo que lhe fosse demandado. Enfim, o que diz é que o humano, embora deseje a perfeição, não pode atender ao ideal de perfeição. O humano é marcado, já no ato de seu nascimento, pela separação do corpo daquela que o protegeu plenamente e justo ao nascer fica na mais absoluta dependência das ações, desejos e ensejos de outros humanos para sua sobrevivência. E, caso não receba a atenção necessária, poderá não encontrar porvir.
Na sua dependência ele está sob o signo de muitas faltas, ausências, aí se fazendo o desenho daquilo que ainda o marca como incompleto. Então se conclui que “todo humano”, ao ser incompleto, é especial.
A vida do humano se faz, se constitui e se organiza sobre essa experiência de incompletude, ele segue sendo um especial e dependente e estas condições têm sua importância, pois é em torno destas diferenças que todos os ganhos, em suas diferentes modalidades, ocorrerão; as relações se estabelecerão em suas diversas possibilidades e qualidades – assim se constituem os laços, os grupos, a sociedade, fazendo a civilidade ou não, a civilização possível e a cultura.
A Psicanálise, por ter se ocupado do que é o especial no gênero humano, ou seja, por ter se ocupado dos efeitos do que conhecemos por “castração”, pode ensinar que é por sabermos que todos somos imperfeitos, castrados, que podemos efetiva e verdadeiramente “educar”. Porém, atendendo e tratando no ato de educar, no ato de tratamento do que pode ser esse ideal para aqueles sujeitos, respeitando a singularidade, as proporções que cada um pode dar ao seu desejo de saber. Não atendendo ao ideal que sempre se supõe, infelizmente, como o ideal que uma Sociedade ou Cultura preestabeleceu aos seus cidadãos.
Ao educador resta então, rever sua posição em relação ao que supõe sobre os ideais para os sujeitos, da formatação ou da montagem, porque estaria somente atendendo a demanda, ao Ideal Social.
A SERPIÁ não é surda aos Ideais Sociais e tampouco a Psicanálise e seus praticantes. A SERPIÁ abraça a causa da Psicanálise e a toma como modelo de pensar o sujeito, isto por acreditar que pode cuidar do sofrimento, do adoecer daqueles que se deparam com a demanda impossível dos Ideais Sociais. Não são negados os princípios e valores sociais, estes servem de referência para que os sujeitos possam descobrir nas suas demandas “especiais” o desejo que pode abrir caminho para dar curso a uma história e vida, sem depender dos efeitos de uma condição física ou psíquica.
Referência:
BRUNETTO, A. Psicanálise e Educação
Por Maria Augusta de Mendonça Guimarães
Na clínica psicanalítica, a angústia coloca o analista frente a um tema complexo e já muito discutido, que ainda mobiliza questões para aqueles interessados no estudo da psicanálise. Tanto Freud quanto Lacan debruçaram-se sobre esse assunto, bastante freqüente em suas obras, quer em textos específicos ou articulado com outros temas. Freud fez algumas modificações ao longo do tempo em relação à definição de angústia, e Lacan acrescentou valiosas contribuições, relacionadas principalmente à relação angústia – objeto.
Confira a versão completa.
Por Ingrid Cadore
Grande sabedoria é saber olhar a vida de maneira diversa que a habitual, ir além das aparências, descobrir novas maneiras de otimizar nosso tempo para aprender a fazer alguma coisa nova, ou resgatar velhos sonhos.
Sim, lembra daqueles sonhos simples, que estão guardados no mais longínquo recanto de nossa alma?
Lembra daquele tempo em que você se entregava aos prazeres singelos como cultivar uma pequena horta ou uma roseira; em que pescar era um simples pretexto para ficar à sós com seus pensamentos, ouvindo o barulhinho gostoso da água nas pedras?
Ou, então, na sua infância quando você ia espiar a “oficina” do seu avô onde ele restaurava brinquedos, pintava a sua bicicleta, que ficava novinha.em folha..
Onde ficou seu prazer em fazer um bolo e poder curtir o aroma que se espalha pela casa, ou a vontade secreta de grafitar um muro?
Que tal olhar a vida com novos olhos e chegar ao final do dia se fazendo se perguntando: “o que me surpreendeu hoje? O que me perturbou ou me emocionou hoje? O que me inspirou hoje?”
O trabalho voluntário pode ser uma oportunidade de desenvolver um talento novo ou resgatar talentos já desenvolvidos, mas que não estão sendo requisitados no nosso cotidiano. Também pode ser uma forma de exercermos nossos talentos num contexto novo, colocando-os a serviço de uma instituição.
Depois de algum tempo você poderá se surpreender com alguns efeitos do seu trabalho voluntário na sua carreira profissional e na sua vida:
- ao realizar de maneira nova tarefas antigas;
- ao se sentir renovado por causa do valor que seu trabalho social representa na vida das pessoas beneficiadas por aquela instituição;
- ao se revelar diante de seus colegas de trabalho e familiares com sua capacidade empreendedora, que suas tarefas do cotidiano às vezes não possibilitaram revelar;
- ao enxergar a vida com olhos de poeta, de jornalista, de criança… com os olhos daquelas pessoas excluídas que até então só eram percebidas como um estorvo, como se nós não tivéssemos nenhuma responsabilidade social com estes problemas!
Todas as vidas têm um significado. Encontrar o sentido das coisas nem sempre é fazer algo diferente. Por vezes, é somente enxergar o cotidiano, a rotina de uma forma diferente. Mas o trabalho voluntário em alguma instituição pode ser um forte agente de mudança.
A Associação SERPIÁ (Serviços e Programas da Infância e Adolescência), instituição que oferece terapia a cerca de 120 crianças e adolescentes em sofrimento psíquico, está ampliando o seu grupo de voluntários.
Por Rosecler Alice da Silva
A psiquiatria é uma especialidade médica que tem como funções básicas o diagnóstico e o tratamento de doenças ou sintomas de origem psíquica. Mais do que atribuir um diagnóstico ou medicar, passa antes por questões como identificar fatores de risco ou proteção, vulnerabilidades físicas, emocionais, genéticas e sociais, além, é claro, de estabelecer parâmetros científicos baseados em evidência para formular uma hipótese diagnóstica que é essencial para o norteamento do planejamento e tratamento clinico.
Todas essas informações a respeito do paciente são mais facilmente e mais fidedignamente colhidas e pensadas se ocorre uma troca entre os diversos profissionais que atendem essa pessoa. Isso é ainda mais verídico em psiquiatria da infância e adolescência, na qual o tratamento de crianças e adolescentes em sofrimento psíquico exige o envolvimento de diversos áreas. Na SERPIÁ podemos ter essa oportunidade de trocas de experiências e visões de atendimento entre os profissionais. Além disso, contamos com outros colegas não envolvidos diretamente no caso para poder ajudar a pensar as estratégias de intervenção, devendo esses aspectos ser constantemente estimulados e praticados. Ambos aprendemos e o mais favorecido é o paciente instrumento de nossa atenção.
Considero o trabalho em equipe uma queda do modelo onde reina o narcismo e onitpotência do profissional que coloca adjetivos possessivos na pessoa que lhe procura (“MEU paciente!”) – postura que apenas encobre e atrapalha uma boa assistência. O trabalho multidisciplinar é permeado de respeito, flexibilidade, aceitação, abertura e acima de tudo reconhecimento de que não existem verdades absolutas, mas sim vários caminhos para ajudar os pacientes e familiares que chegam até nós.
Por Maria Augusta de Mendonça Guimarães
A adolescência é uma fase da vida com características extremamente peculiares, onde o indivíduo se vê deparado com uma série de atitudes e escolhas que deve tomar. Inicia-se um processo de individualização significativamente ansiogênico para quem até então estava dependente do núcleo familiar. A eclosão dos hormônios e o desenvolvimento corporal são algumas das mudanças que o adolescente tem dificuldade de lidar, além de outras como o afloramento da sexualidade, as conseqüentes escolhas objetais, as definições sobre seus interesses e os posicionamentos perante os mais variados assuntos; e tudo se dando nos tempos da sociedade de consumo, da busca do prazer imediato e da solidão típicos da pós-modernidade. Além disso, o adolescente ainda precisa escolher uma profissão ou, pelo menos, é cobrado pela sociedade a entrar, de alguma forma, no mercado de trabalho. Portanto, faz-se necessário algumas considerações sobre esse período da vida tão conturbado que é a adolescência.
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