Por Camila Siqueira G. Acosta Gonçalves
Música: Família – Titãs (álbum “Cabeça Dinossauro”)
Família, família
Papai, mamãe, titia,
Família, família
Almoça junto todo dia,
Nunca perde essa mania
Mas quando a filha quer fugir de casa
Precisa descolar um ganha-pão
Filha de família se não casa
Papai, mamãe, não dão nenhum tostão
Família ê
Familia á
Família
Família, família
Vovô, vovó, sobrinha
Família, família
Janta junto todo dia,
Nunca perde essa mania
Mas quando o nenê fica doente
Procura uma farmácia de plantão
O choro do nenê estridente
Assim não dá pra ver televisão
Família ê
Familia á
Família
Família, família,
Cachorro, gato, galinha
Família, família,
Vive junto todo dia,
Nunca perde essa mania
A mãe morre de medo de barata
O pai vive com medo de ladrão
Jogaram inseticida pela casa
Botaram um cadeado no portão
Família ê
Familia á
Família
A letra da canção acima ilustra a convivência familiar de maneira bem-humorada. Apresenta, portanto, a instituição com a qual a clínica também trabalha, que é a instituição familiar.
Tudo isso para refletirmos o papel da clínica frente à demanda por tratamento, que, em nosso caso, aparece legitimada na criança ou no adolescente.
Podemos dizer que quando a família aparece para acompanhar um paciente, ela canta uma canção que julga representá-la no mundo. Não podemos saber das minúcias dessa canção se ela for ouvida uma só vez, e por isso cada familiar envolvido no tratamento encontra um espaço para cantar a sua parte. E é aí que podemos perceber as minúcias de cada indivíduo em sua família, se há vozes que se complementam, ou mesmo casos em que uma voz abafa a outra, e até canções em que um familiar nem cante, só duble, pois por algum motivo ele não “entrou” nesse “embalo”.
O espaço de escuta das partes desse “todo” familiar começa já quando se marca uma consulta, quando uma queixa é apresentada, que deveria ser o tema da canção. Chegando na clínica, nas entrevistas preliminares, pode-se ter uma idéia de como tal tema será desenvolvido—por vezes esperamos escutar uma música e nos deparamos com outra bem diferente…
Na Brinquedoteca há a chance de acolher essa família de cantores junto a outras famílias. É um espaço de escuta e intervenção que pode levar cada cantor a procurar variações da canção, ou mesmo a fazer um solo inesperado ao perceber que seu momento não era bem só no refrão. Talvez na relação com os brinquedistas, as crianças ou outros indivíduos não tão familiares possam promover um encontro vocal, outras parcerias.
Nas atividades culturais, como as oficinas, cada participante terá novos recursos para incorporar em sua canção, ou mesmo para descobrir novas canções com as quais se identifique, talvez até passe a cantar em outro registro vocal, perceba que está mais comfortável cantando nos agudos do que nos graves…
A escuta dos acompanhantes é também um momento especial: pode ser nessa situação que estes ouçam, de fato, sua própria voz ecoando, a partir daí poderão perceber as potencialidades de suas vozes e as particularidades das vozes dos outros.
Já nos atendimentos clínicos, há a chance de perceber como a criança ou o adolescente se percebe nesse seu cantar. É um canto genuíno? É aquela canção que o representa?
Mais do que isso, há a chance de ele próprio perceber-se com voz e saber que seu timbre, apesar de próximo de algum de seus familiares, é único. E que, se repete o refrão ou responde a um solo com um silêncio, está construindo a sua expressão no mundo. E é capaz de responder por seu cantar.
Enfim, o importante é que esse espaço da SERPIÁ não mantenha o paciente e seus acompanhantes numa dinâmica de “disco quebrado”, num refrão incessante de pedidos que só têm voz quando unidos—em uma falsa harmonia—mas se calam quando há a oportunidade de se ouvir voz a voz, pessoa a pessoa.
É com lapsos na canção familiar, com trocas de letras, com uma ‘desafinadinha’ do coro que seus integrantes podem perceber suas demandas por novas peças musicais…
…obras-primas de cada sujeito em relação.