Por Maria Aparecida de Luna Pedrosa
A SERPIÁ, como instituição, é reconhecida na comunidade pelo trabalho que realiza, marcado pela discursividade psicanalítica. “A SERPIÁ realiza sua missão voltada à prevenção e o restabelecimento da saúde mental de crianças e adolescentes” e amplia, neste sentido, seu investimento de trabalho atendendo às famílias. Somado a isso se preocupa, desde o início de suas atividades, em dispensar atenção à Educação.
Realiza suas atividades em torno daquilo que é reconhecido como efeitos, resultados de relações com as realidades experimentadas pelos indivíduos. Sejam da ordem que forem, essas realidades são experiências nos laços nem sempre vividas com satisfação, daí o adoecimento. A SERPIÁ trabalha com o adoecimento e sua prevenção de modo bastante apurado e responsável, inclusive no campo da Educação, desenvolvendo projetos de inclusão em parceria com a Universidade Federal do Paraná e a Fundação de Ação Social.
Como se pensa em definir a educação?
Sabemos que a Educação teve sempre por objetivo formar os indivíduos, este é um dado e fato historicamente reportados como ideal advindo desde a cultura grega. Cito Andréa Brunetto, que em seu livro Psicanálise e Educação, compara o mestre educador com o oleiro, aquele que modelava a argila. A educação teve esse papel na história, lembrando ao humano de sua submissão às leis e regras e de que só obedecendo de modo incontinente ao mestre ele poderia conhecer, se desenvolver, produzir técnicas e se aperfeiçoar.
A Educação teve como tarefa, historicamente traçada, cuidar da formação do homem, de modo a preservar os valores da Cultura e a prover a sociedade de cidadãos dignos – esse é um ideal da sociedade grega -.
Inegável o desejo de buscar a formação, mas por qual método?
A Educação na contemporaneidade tem buscado ampliar e alterar suas práticas e seus métodos para atender aos indivíduos que não correspondem aos ideais da Sociedade e da Cultura. Vem buscando modelos, ferramentas conceituais para oferecer o atendimento, especialmente àqueles que apresentam algum grau de comprometimento em sua organização psíquica ou orgânica e corporal.
Vem de algumas décadas as reflexões sobre os modelos de ensino destinados aos indivíduos considerados “especiais”, porém é recente a preocupação em atendê-los ao lado dos indivíduos considerados, diferentemente, capazes – logo “não especiais”-.
O educador, antes formado para atender aos capazes, é hoje tomado pela demanda política e ética de atender em conjunto os indivíduos “especiais” e capazes – ou não especiais -. Ora, que tempos! A ciência, no campo da Educação, qualifica os indivíduos de modo a que as diferenças se mantenham, porém devendo desfazer a diferença.
O campo da formação dos educadores os dotou e formou sob um pensamento ainda determinado por princípios focados no Ideal Grego. Parece então estar este campo pouco ou insuficientemente preparado para o necessário enfrentamento com o diferente, a não ser para tratar o diferente na diferença e tomando esta diferença como especialidade. É por isto que nos deparamos com os tratamentos concebidos como especiais, pois ainda convive-se com a qualificação do sujeito em sofrimento, o aluno especial – onde inclusive ainda lê-se aluno (aquele que não brilha, não tem luz) e especial (o diferente)-.
O sujeito qualificado como capaz não é especial? Por quê?
O que a Psicanálise pode então começar a ensinar aos educadores?
Penso que pode contar que os humanos – o gênero humano – poderia ser definido, em princípio, como especial, se seguirmos a lógica que a ciência propõe para pensar aquele sujeito com sofrimento por algum comprometimento físico ou mental. Ora, foi um psicanalista bastante conhecedor da ciência médica e do sofrimento com as deficiências em crianças, o senhor Sigmund Freud, que cometeu a maior subversão ao anunciar que o humano está desde sempre marcado pela experiência de não poder tudo, não poder encontrar “toda” a satisfação que poderia esperar e nem atender a tudo que lhe fosse demandado. Enfim, o que diz é que o humano, embora deseje a perfeição, não pode atender ao ideal de perfeição. O humano é marcado, já no ato de seu nascimento, pela separação do corpo daquela que o protegeu plenamente e justo ao nascer fica na mais absoluta dependência das ações, desejos e ensejos de outros humanos para sua sobrevivência. E, caso não receba a atenção necessária, poderá não encontrar porvir.
Na sua dependência ele está sob o signo de muitas faltas, ausências, aí se fazendo o desenho daquilo que ainda o marca como incompleto. Então se conclui que “todo humano”, ao ser incompleto, é especial.
A vida do humano se faz, se constitui e se organiza sobre essa experiência de incompletude, ele segue sendo um especial e dependente e estas condições têm sua importância, pois é em torno destas diferenças que todos os ganhos, em suas diferentes modalidades, ocorrerão; as relações se estabelecerão em suas diversas possibilidades e qualidades – assim se constituem os laços, os grupos, a sociedade, fazendo a civilidade ou não, a civilização possível e a cultura.
A Psicanálise, por ter se ocupado do que é o especial no gênero humano, ou seja, por ter se ocupado dos efeitos do que conhecemos por “castração”, pode ensinar que é por sabermos que todos somos imperfeitos, castrados, que podemos efetiva e verdadeiramente “educar”. Porém, atendendo e tratando no ato de educar, no ato de tratamento do que pode ser esse ideal para aqueles sujeitos, respeitando a singularidade, as proporções que cada um pode dar ao seu desejo de saber. Não atendendo ao ideal que sempre se supõe, infelizmente, como o ideal que uma Sociedade ou Cultura preestabeleceu aos seus cidadãos.
Ao educador resta então, rever sua posição em relação ao que supõe sobre os ideais para os sujeitos, da formatação ou da montagem, porque estaria somente atendendo a demanda, ao Ideal Social.
A SERPIÁ não é surda aos Ideais Sociais e tampouco a Psicanálise e seus praticantes. A SERPIÁ abraça a causa da Psicanálise e a toma como modelo de pensar o sujeito, isto por acreditar que pode cuidar do sofrimento, do adoecer daqueles que se deparam com a demanda impossível dos Ideais Sociais. Não são negados os princípios e valores sociais, estes servem de referência para que os sujeitos possam descobrir nas suas demandas “especiais” o desejo que pode abrir caminho para dar curso a uma história e vida, sem depender dos efeitos de uma condição física ou psíquica.
Referência:
BRUNETTO, A. Psicanálise e Educação
OBRIGADA!!!
HÁ MUITO NÃO LIA UM ARTIGO TÃO CLARO, CONCISO E ELUCIDATIVO.
DEUS O ILUMINE E CONCEDA-LHE SABEDORIA.
UMA ABRAÇO. ANA MARIA SCHONROCK.